Freud - Obras Completas II (parte 2)

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DISCUSSÃO

A menos que tenhamos em primeiro lugar chegado a um acordo completo sobre a terminologia em jogo, não é fácil resolver se um caso particular deve ser considerado como sendo de histeria ou de alguma outra neurose (refiro-me aqui às neuroses que não são de tipo puramente neurastênico); e ainda temos de aguardar a mão orientadora que fixará os marcos fronteiriços na região das neuroses mistas, que ocorrem comumente, e que trará à tona os aspectos essenciais para a caracterização destas. Por conseguinte, se ainda estivermos acostumados a diagnosticar uma histeria, no sentido mais estrito do termo, por sua semelhança com casos típicos já conhecidos, dificilmente poderemos questionar o fato de que o caso da Sra. Emmy von N. era de histeria. O caráter brando de seus delírios e alucinações (enquanto suas outras atividades mentais permaneciam intactas), a modificação de sua personalidade e de seu acervo de lembranças quando se encontrava num estado de sonambulismo artificial, a anestesia em sua perna dolorida, certos dados revelados em sua anamnese, sua nevralgia ovariana, etc. não admitem dúvida quanto à natureza histérica da doença, ou, pelo menos, da paciente. Se alguma questão pode ser levantada, é apenas graças a um aspecto particular do caso, que também dá oportunidade para um comentário de validade geral. Como explicamos na “Comunicação Preliminar” que aparece no início deste volume, consideramos os sintomas histéricos como efeitos e resíduos de excitações que atuaram sobre o sistema nervoso como traumas. Não há permanência de resíduos dessa natureza quando a excitação original é descarregada por ab-reação ou pela atividade do pensamento. Não é mais possível, a esta altura, evitar a introdução da idéia de quantidades (ainda que não mensuráveis). Devemos considerar o processo como se uma soma de excitação, atuando sobre o sistema nervoso, se transformasse em sintomas crônicos, na medida em que não fosse empregada em ações externas na proporção de sua quantidade. Ora, estamos habituados a verificar que, na histeria, uma parte considerável dessa “soma de excitação” do trauma é transformada em sintomas puramente somáticos. Foi essa característica da histeria que por tanto tempo atrapalhou seu reconhecimento como um distúrbio psíquico.
Se, para sermos breves, adotarmos o termo “conversão” para designar a transformação da excitação psíquica em sintomas somáticos crônicos, que é tão característica da histeria, podemos então dizer que o caso da Sra. Emmy von N. apresentava apenas uma pequena quantidade de conversão. A excitação, que era originariamente psíquica, permaneceu em sua maior parte nessa esfera, e é fácil compreender que isso lhe confere uma semelhança com as outras neuroses, não histéricas. Existem casos de histeria em que todo o excedente da estimulação sofre conversão, de modo que os sintomas somáticos da histeria se intrometem no que parece ser uma consciência inteiramente normal. A transformação incompleta, no entanto, é mais comum, de modo que pelo menos parte do afeto que acompanha o trauma persiste na consciência como um componente do estado emocional do indivíduo.
Os sintomas psíquicos em nosso atual caso de histeria, em que havia muito pouca conversão, podem ser divididos em alterações do humor (angústia, depressão melancólica), fobias e abulias (inibições da vontade). As duas últimas classes de perturbação psíquica são consideradas pela escola francesa de psiquiatria como estigmas da degenerescência neurótica, mas em nosso caso verifica-se que foram suficientemente determinadas por experiências traumáticas. Essas fobias e abulias eram, na sua maior parte, de origem traumática, como mostrarei com detalhes.
Algumas das fobias da paciente, é verdade, correspondiam às fobias primárias dos seres humanos, e especialmente dos neuropatas - em particular, por exemplo, seu medo de animais (cobras e sapos, bem como todos os vermes de que Mefistófeles se gabava de ser o senhor), de tempestades e assim por diante. Mas também essas fobias se firmaram mais graças a acontecimentos traumáticos. Assim, seu medo dos sapos foi fortalecido pela experiência, nos primeiros anos de infância, de um de seus irmãos lhe ter atirado um sapo morto, o que levou a seu primeiro acesso de espasmos histéricos |ver em [1]|; e de modo semelhante, seu medo de tempestades foi provocado pelo choque que deu lugar a seu estalido característico | ver em [1]|, e o medo de nevoeiros pelo passeio na Ilha de Rügen |ver em [1]|. Não obstante, neste grupo o medo primário - ou talvez se pudesse dizer o medo instintivo - (considerado como um estigma psíquico) desempenha o papel preponderante.
As outras fobias, mais específicas, também foram explicadas por acontecimentos bem determinados. Seu temor de choques inesperados e súbitos era conseqüência da terrível impressão que teve ao ver o marido, que parecia estar gozando de ótima saúde, sucumbir a um ataque cardíaco diante de seus próprios olhos. Seu medo dos estranhos e das pessoas em geral revelou-se originário da época em que estava sendo perseguida pela família |do marido| e tendia a ver um agente deles em cada estranho, e de quando lhe pareceu provável que os estranhos soubessem das coisas que estavam sendo espalhadas por toda parte a respeito dela, por escrito e verbalmente |ver em [1]-[2]|. Seu medo dos hospícios e de seus ocupantes remontava a toda uma série de acontecimentos tristes ocorridos em sua família e às histórias despejadas em seus ouvidos atentos por uma empregada estúpida |ver em [1]|. Independentemente disso, essa fobia era sustentada, de um lado, pelo horror primário e instintivo que as pessoas sadias têm à loucura, e de outro, pelo medo sentido por ela, não menos do que por todos os neuróticos, de que ela mesma viesse a enlouquecer. Seu medo altamente específico de que houvesse alguém de pé atrás dela |ver em [1]| foi determinado por diversas experiências apavorantes na mocidade e mais tarde. Desde o episódio do hotel |ver em [1]|, que lhe foi especialmente aflitivo por causa de suas implicações eróticas, seu medo de que um estranho se esgueirasse para seu quarto foi muito acentuado. Por fim, seu medo de ser enterrada viva, que partilhava com tantos neuropatas, era inteiramente explicado por sua crença de que o marido não estava morto quando seu corpo foi levado - crença esta que expressava de modo tão comovente sua incapacidade de aceitar o fato de que sua vida com o homem a quem amava chegara a um fim súbito. Na minha opinião, contudo,todos esses fatores psíquicos embora possam responder pela escolha dessas fobias, não podem explicar-lhe a persistência. É necessário, julgo eu, acrescentar um fator neurótico para explicar sua persistência - o fato de que a paciente vinha vivendo há anos em estado de abstinência sexual. Tais circunstâncias se acham entre as causas mais freqüentes de uma tendência à angústia.
As abulias de nossa paciente (inibições da vontade, incapacidade de agir) admitem ainda menos que as fobias sejam consideradas como estigmas psíquicos causados por uma limitação geral da capacidade. Pelo contrário, a análise hipnótica do caso tornou claro que suas abulias eram determinadas por um duplo mecanismo psíquico - o qual, no fundo, era um só. Em primeiro lugar, uma abulia pode ser simples conseqüência de uma fobia. Isso ocorre quando a fobia se acha ligada a uma ação do próprio sujeito, e não a uma expectativa |de um fato externo| - por exemplo, em nosso caso atual, o medo de sair ou de se relacionar com as pessoas, em contraste com o medo de alguém se esgueirar para dentro do quarto. Aqui, a inibição da vontade é causada pela angústia concomitante à realização da ação. Seria errado considerar tais espécies de abulias como sintomas distintos das fobias correspondentes, embora se deva admitir que essas fobias podem existir (contanto que não sejam graves demais) sem produzir abulias. A segunda classe de abulias depende da presença de associações carregadas de afeto e não resolvidas que se oponham à vinculação com outras associações, e particularmente com qualquer uma que seja incompatível com elas. A anorexia da nossa paciente oferece o mais brilhante exemplo dessa espécie de abulia |ver em [1] |. Ela comia tão pouco por não gostar do sabor, e não podia apreciar o sabor porque o ato de comer, desde os primeiros tempos, se vinculara a lembranças de repulsa cuja soma de afeto jamais diminuíra em qualquer grau; e é impossível comer com repulsa e prazer ao mesmo tempo. Sua antiga repulsa às refeições permanecera inalterada porque ela era constantemente obrigada a reprimi-la, em vez de livrar-se dela por reação. Na infância ela fora forçada, sob ameaça de punição, a comer a refeição fria que lhe era repugnante, e nos anos posteriores tinha sido impedida, por consideração aos irmãos, de externar os afetos a que ficava exposta durante suas refeições em comum.

Neste ponto, talvez deva referir-me a um pequeno artigo no qual tentei dar uma explicação psicológica das paralisias histéricas (Freud 1893c). Nele cheguei à hipótese de que a causa dessas paralisias residiria na inacessibilidade a novas associações por parte de um grupo de representações vinculadas, digamos, a uma das extremidades do corpo; essa inacessibilidade associativa dependeria, por sua vez, do fato de a representação do membro paralisado estar ligada à lembrança do trauma - uma lembrança carregada de afeto que não fora descarregado. Mostrei, a partir de exemplos extraídos da vida cotidiana, que uma catexia como essa, de uma representação cujo afeto não foi decomposto, envolve sempre uma certa dose de inacessibilidade associativa e de incompatibilidade com novas catexias.
Até agora não consegui confirmar, por meio da análise hipnótica, essa teoria sobre as paralisias motoras, mas posso citar a anorexia da Sra. von N. como prova de que esse mecanismo é o que opera em certas abulias, e de que as abulias nada mais são que uma espécie altamente especializada - ou, para usar uma expressão francesa, “sistematizada” - de paralisia psíquica.
A situação psíquica da Sra. von N. pode ser caracterizada no seu essencial, ressaltando-se dois pontos. (1) Os afetos aflitivos vinculados a suas experiências traumáticas tinham ficado indecompostos - por exemplo, sua depressão, sua dor (pela morte do marido), seu ressentimento (por ser perseguida pelos parentes dele), sua repulsa (pelas refeições compulsórias), seu medo (das numerosas experiências assustadoras), e assim por diante. (2) Sua memória exibia uma intensa atividade, que, ora espontaneamente, ora em reação a um estímulo contemporâneo (por exemplo, as notícias da revolução em São Domingos |ver em [1]|), trazia seus traumas e os afetos concomitantes, pouco a pouco, até sua consciência atual. Minha conduta terapêutica baseou-se nessa atividade de sua memória, e esforcei-me todos os dias para resolver e livrar-me de tudo o que cada dia trazia à tona, até que o acervo acessível de suas lembranças patológicas pareceu estar esgotado.
Essas duas características psíquicas, que considero como geralmente presentes nos paroxismos histéricos, abriram caminho para muitas considerações importantes. Adiarei, contudo, a discussão das mesmas até que tenha dispensado certa atenção ao mecanismo dos sintomas somáticos.
Não é possível atribuir a mesma origem a todos os sintomas somáticos desses pacientes. Pelo contrário, mesmo a partir deste caso, que não os apresentava em grande número, verificamos que os sintomas somáticos de uma histeria podem surgir de várias maneiras. Ousarei, em primeiro lugar, incluir as dores entre os sintomas somáticos. Até onde posso ver, um grupo de dores da Sra. von N. fora por certo organicamente determinado por ligeiras modificações (de natureza reumática) nos músculos, tendões ou feixes, que causam muito mais dor nos neuróticos do que nas pessoas normais. Outro grupo de dores era, com certeza, as lembranças de dores - eram símbolos mnêmicos das épocas de agitação e cuidados prestados aos doentes, épocas que desempenharam papel de grande relevância na vida da paciente. É bem possível que essas dores também se tenham justificado, originariamente, em bases orgânicas, mas foram depois adaptadas para as finalidades da neurose. Baseio estas afirmativas sobre as dores da Sra. von N. principalmente em observações feitas em outro caso, as quais relatarei mais adiante. Quanto a este ponto particular, poucas informações puderam ser colhidas com a própria paciente.
Alguns dos notáveis fenômenos motores revelados pela Sra. von N. eram simplesmente expressão das emoções e podiam ser reconhecidos com facilidade como tal. Assim, a maneira como estendia as mãos para a frente com os dedos separados e retorcidos expressava horror, do mesmo modo que seu jogo facial. Esta era, com certeza, uma maneira mais viva e desinibida de expressar as emoções do que era comum entre as mulheres de sua instrução e raça. Na realidade, ela própria era comedida, quase rígida em seus movimentos expressivos quando não se encontrava em estado histérico. Outros de seus sintomas motores estavam, de acordo com ela própria, relacionados diretamente com suas dores. Agitada, ela brincava com os dedos (1888) |ver em [1]| ou esfregava as mãos uma na outra (1889) |ver em [1]| para impedir-se de gritar. Esse raciocínio nos obriga a lembrar de um dos princípios formulados por Darwin para explicar a expressão das emoções - o princípio do extravasamento da excitação |Darwin, 1872, Cap. III|, que explica, por exemplo, por que os cães abanam as caudas. Todos nós estamos acostumados, ao sermos atingidos por estímulos dolorosos, a substituir o grito por outros tipos de inervações motoras. Uma pessoa que tenha tomado a firme decisão de, no consultório do dentista, conservar a cabeça e a boca imóveis, e não colocar a mão no caminho, poderá no mínimo começar a bater com os pés.

Um método mais complicado de conversão é revelado pelos movimentos semelhantes a tiques da Sra. von N., como estalar a língua e gaguejar, chamar pelo nome “Emmy” nos estados confusionais |ver em [1]| e empregar a expressão “Fique quieto! Não diga nada! Não me toque!” (1888) |ver em [1]|. Dessas manifestações motoras, a gagueira e o estalido com a língua podem ser explicados segundo um mecanismo que descrevi, num breve artigo sobre o tratamento de um caso por sugestão hipnótica (1892-93), como “o acionamento de idéias antitéticas”. O processo, tal como exemplificado em nosso caso atual |ver em [1]| seria como se segue. Nossa paciente histérica, esgotada pela preocupação e pelas longas horas de vigília junto ao leito da filha enferma que afinal adormecera, disse a si mesma: “Agora você precisa ficar inteiramente imóvel para não acordar a menina.” É provável que essa intenção tenha dado origem a uma representação antitética, sob a forma de um medo de que, mesmo assim, ela fizesse um ruído que despertasse a criança do sono que tanto esperara. Representações antitéticas como essa surgem em nós de forma marcante quando nos sentimos inseguros de poder pôr em prática alguma intenção importante.
Os neuróticos, em cujo sentimento a respeito de si mesmos é difícil deixar de encontrar uma veia de depressão ou de expectativa ansiosa, formam um número maior dessas idéias antitéticas do que as pessoas normais, ou as percebem com mais facilidade, e as consideram mais importantes. No estado de exaustão de nossa paciente a idéia antitética, que seria normalmente rejeitada, mostrou-se a mais forte. Foi essa idéia que entrou em ação e que, para horror da paciente, na realidade produziu o ruído que ela tanto temia. A fim de explicar todo o processo, pode-se ainda presumir que sua exaustão fosse apenas parcial; ela afetava, para empregarmos a terminologia de Janet e seus seguidores, apenas seu ego “primário”, e não resultava igualmente num enfraquecimento da representação antitética.
Pode-se ainda presumir que foi seu horror ao ruído produzido contra sua vontade que tornou traumático aquele momento e fixou o ruído em si como um sintoma mnêmico somático de toda a cena. Creio, realmente, que o caráter do próprio tique, que consistia numa sucessão de sons emitidos de forma convulsiva e separados por pausas e que melhor se assemelharia a estalidos, revela traços do processo ao qual devia sua origem. Parece ter havido um conflito entre a intenção dela e a idéia antitética (a contravontade), o que deu ao tique seu caráter descontínuo e confinou a representação antitética em outras vias que não as habituais para inervar o aparelho muscular da fala.
A inibição espástica da fala da paciente - sua gagueira peculiar - era o resíduo de uma causa excitante fundamentalmente similar |ver em [1]-[2]|. Nesse caso, contudo, não foi o resultado da inervação final - a exclamação - mas o próprio processo de inervação - a tentativa de inibição convulsiva dos órgãos da fala - que foi transformado num símbolo do acontecimento em sua memória.
Esses dois sintomas, o estalido e a gagueira, que estavam assim intimamente relacionados pela história de sua origem, continuaram a se associar e se transformaram em sintomas crônicos após se repetirem numa ocasião semelhante. A partir daí, passaram a ser utilizados em mais um sentido. Tendo-se originado num momento de violento pavor, foram desde então ligados a qualquer medo (de acordo com o mecanismo da histeria monossintomática, que será descrito no Caso 5 |ver em [1] |), mesmo quando o medo não podia levar ao acionamento de uma representação antitética.
Os dois sintomas acabaram sendo vinculados a tantos traumas, e tiveram tantas razões para serem reproduzidos na memória, que passaram a interromper sempre a fala da paciente, sem nenhuma causa específica, à maneira de um tique sem significado. A análise hipnótica, entretanto, pôde demonstrar quanto significado se ocultava por trás desse aparente tique; e se o método de Breuer não conseguiu, nesse caso, eliminar de todo os dois sintomas de um só golpe, foi porque a catarse se estendera apenas aos três traumas principais, e não aos traumas associados de forma secundária.

Segundo as normas que regem os ataques histéricos, a exclamação “Emmy” durante seus acessos de confusão reproduzia, como havemos de recordar, seus freqüentes estados de desamparo durante o tratamento da filha. Essa exclamação estava ligada ao conteúdo do ataque por um complexo encadeamento de idéias e sua natureza era a fórmula protetora contra o ataque. A exclamação, por uma aplicação mais ampla do seu significado, provavelmente degeneraria num tique, como de fato já havia acontecido no caso da complicada fórmula protetora “Não me toque”, etc. Em ambas as situações o tratamento hipnótico impediu qualquer outra progressão dos sintomas; mas a exclamação “Emmy” mal havia surgido, e apanhei-a enquanto ainda estava em seu solo nativo, restrito aos ataques de confusão.
Como vimos, esses sintomas motores se originaram de várias maneiras: por meio do acionamento de uma representação antitética (como no estalido), por uma simples conversão da excitação psíquica em atividade motora (como na gagueira), ou por uma ação voluntária durante um paroxismo histérico (como nas medidas protetoras exemplificadas pela exclamação “Emmy” e pela fórmula mais longa). Mas como quer que esses sintomas motores se tenham originado, todos têm uma coisa em comum. Pode-se demonstrar que possuem uma ligação originária ou de longa data com os traumas, e representam símbolos destes nas atividades da memória.
Outros dos sintomas somáticos da paciente não eram em absoluto de natureza histérica. Isto se aplica, por exemplo, às cãibras no pescoço, que considero como uma forma modificada de enxaqueca |ver em [1]| e que, como tal, não devem ser classificadas como uma neurose, mas como um distúrbio orgânico. Os sintomas histéricos, porém, ligam-se regularmente a tais distúrbios. As cãibras no pescoço da Sra. von N., por exemplo, eram empregadas para fins dos ataques histéricos, embora ela não tivesse a seu dispor a sintomatologia típica dos ataques histéricos.
Ampliarei esta descrição do estado psíquico da Sra. von N. com algumas considerações sobre as alterações patológicas de consciência que puderam ser observadas nela. Tais como suas cãibras no pescoço, os acontecimentos aflitivos presentes (cf. seu último delírio no jardim |em [1]|) ou qualquer coisa que a fizesse recordar com intensidade qualquer de seus traumas levavam-na a um estado de delírio. Em tais estados - e as poucas observações que fiz não me conduziram a nenhuma outra conclusão - havia uma limitação da consciência e uma compulsão a associar, semelhante à que predomina nos sonhos |em. [1]|; as alucinações e ilusões eram facilitadas até o mais alto grau e faziam-se inferências tolas ou mesmo disparatadas. Esse estado, que era comparável ao da alienação alucinatória, provavelmente representava um ataque. Poderia ser encarado como uma psicose aguda (servindo como equivalente de um ataque) que seria classificada como uma situação de “confusão alucinatória”. Uma outra semelhança entre esses seus estados e um ataque histérico típico foi mostrada pelo fato de que uma parcela das lembranças traumáticas enraizadas desde longa data podia em geral ser detectada como subjacente ao delírio. A transição de um estado normal para um delírio ocorria muitas vezes de forma imperceptível. Num dado momento, ela ia conversando de modo perfeitamente racional sobre assuntos de pequena importância emocional e, à medida que a conversa passava para idéias de natureza aflitiva, eu notava por seus gestos exagerados ou pelo surgimento de suas fórmulas habituais de fala, etc., que ela se encontrava num estado de delírio. No início do tratamento o delírio durava o dia inteiro, de modo que era difícil definir com certeza se quaisquer sintomas - como seus gestos - faziam parte de seu estado psíquico como meros sintomas de um ataque, ou se - como o estalido e a gagueira - tinham-se tornado autênticos sintomas crônicos. Muitas vezes, só após o evento é que era possível distinguir entre o que tinha acontecido num delírio e o que tinha acontecido em seu estado normal, pois os dois estados estavam separados em sua memória e, algumas vezes, ela ficava extremamente surpresa ao saber das coisas que o delírio havia introduzido aos poucos em sua conversa normal. Minha primeira entrevista com ela constituiu o exemplo mais marcante da maneira como os dois estados se entrelaçavam sem prestar nenhuma atenção um ao outro. Somente num momento dessa gangorra psíquica foi que sua consciência normal, em contato com o tempo presente, mostrou-se afetada: foi quando me deu uma resposta oriunda do delírio e disse ser “uma mulher que datava do século passado” |ver em [1]|.
A análise desses estados delirantes na Sra. von N. não foi realizada de forma completa, em virtude de ter sua condição melhorado tão depressa que os delírios se tornaram nitidamente diferenciados de sua vida normal e se restringiram aos períodos de suas cãibras no pescoço. Por outro lado, colhi grande número de informações sobre o comportamento da paciente num terceiro estado, o do sonambulismo artificial. Enquanto, em seu estado normal, ela não tinha nenhum conhecimento das experiências psíquicas ocorridas durante seus delírios e o sonambulismo, tinha acesso durante o sonambulismo, às lembranças de todos os três estados. A rigor, portanto, era no estado de sonambulismo que ela se encontrava no auge de sua normalidade. Realmente, se eu deixar de lado o fato de que no sonambulismo ela era muito menos reservada comigo do que em seus melhores momentos da vida cotidiana - isto é, que no sonambulismo me dava informações sobre sua família e coisas semelhantes, enquanto nas outras ocasiões me tratava como um estranho - e se, além disso, eu desprezar o fato de que ela exibia o grau pleno de sugestionabilidade que é característico do sonambulismo, serei forçado a dizer que durante o sonambulismo ela se achava num estado inteiramente normal. Era interessante observar que, por outro lado, seu sonambulismo não apresentava nenhum sinal de ser supernormal, mas estava sujeito a todas as falhas mentais que estamos acostumados a associar a um estado normal de consciência.
Os exemplos que se seguem esclarecem o comportamento de sua memória no sonambulismo. Certo dia, numa conversa, ela expressou seu encanto pela beleza de uma planta num vaso que decorava o saguão de entrada da casa de saúde. “Mas qual é o nome dela, doutor? O senhor sabe? Eu sabia seus nomes em alemão e latim, mas esqueci.” A paciente tinha amplo conhecimento de plantas, ao passo que fui obrigado, nessa ocasião, a admitir minha falta de preparo em botânica. Alguns minutos depois perguntei-lhe, sob hipnose, se ela agora sabia o nome da planta do saguão. Sem qualquer hesitação, respondeu: “O nome em alemão é ‘Tuerkenlilie’ |martagão|; esqueci mesmo o nome em latim.” De outra feita, quando se sentia bem de saúde, falou-me de uma visita que fizera às catacumbas romanas, mas não conseguia recordar-se de dois termos técnicos, nem pude eu ajudá-la. Logo depois perguntei-lhe, sob hipnose, quais as palavras que estavam em sua mente. Mas ela também não soube dizê-las em hipnose, de modo que lhe falei: “Não se preocupe mais com elas agora, mas quando estiver no jardim amanhã, entre cinco e seis da tarde - mais perto das seis do que das cinco - elas subitamente lhe ocorrerão.” Na noite seguinte, enquanto conversávamos sobre algo que não tinha nenhuma relação com as catacumbas, ela subitamente exclamou: “’Cripta’, doutor, e ‘Columbário’.” “Ah! essas são as palavras em que a senhora não conseguia pensar ontem. Quando foi que lhe ocorreram?” “Hoje à tarde no jardim, pouco antes de eu subir para meu quarto.” Vi que, com isso, ela queria que eu soubesse que havia seguido com precisão minhas instruções quanto ao horário, já que tinha o hábito de sair do jardim por volta das seis horas da tarde.
Vemos assim que mesmo no sonambulismo ela não tinha acesso a toda a extensão do seu conhecimento. Mesmo nesse estado havia uma consciência real e outra potencial. Muitas vezes acontecia que, quando eu lhe perguntava, durante seu sonambulismo, de onde provinha esse ou aquele fenômeno, ela franzia a testa e, depois de uma pausa, respondia num tom de desculpas: “Não sei.” Em tais ocasiões eu tinha adquirido o hábito de dizer: “Pense por um momento; virá sem nenhum rodeio”; e depois de breve reflexão, ela conseguia dar-me a informação desejada. Mas algumas vezes acontecia nada lhe ocorrer, e eu era obrigado a deixá-la com a tarefa de lembrar-se daquilo no dia seguinte, o que nunca deixou de acontecer.
Em sua vida cotidiana a Sra. von N. evitava escrupulosamente qualquer inverdade, e jamais mentiu para mim sob hipnose. Às vezes, contudo, dava-me respostas incompletas e retinha parte da história até eu insistir uma segunda vez para que a completasse. Em geral, como no exemplo citado em [1], era o desagrado inspirado pelo assunto que lhe fechava a boca no sonambulismo, assim como na vida cotidiana. Não obstante, apesar desses traços restritivos, a impressão causada por seu comportamento mental durante o sonambulismo era, no conjunto, a de um desinibido desenrolar de seus poderes mentais e de um pleno domínio sobre seu acervo de lembranças.
Embora não se possa negar que no estado de sonambulismo ela era altamente sugestionável, estava longe de exibir uma ausência patológica de resistência. Pode-se asseverar, de modo geral, que eu não lhe causava maior impressão nesse estado de que esperaria conseguir se estivesse procedendo a uma pesquisa dessa natureza sobre os mecanismos psíquicos de alguém em pleno gozo de suas faculdades e que tivesse plena confiança no que eu dizia. A única diferença era que a Sra. von N. era incapaz, no que era considerado seu estado normal, de ter para comigo tal atitude mental favorável. Quando, como aconteceu com sua fobia por animais, eu não conseguia apresentar-lhe razões convincentes, ou não penetrava na história psíquica da origem de um sintoma, mas tentava atuar por meio de sugestão autoritária, invariavelmente notava em seu rosto uma expressão tensa e insatisfeita; e quando, ao final da hipnose, perguntava-lhe se ainda tinha medo do animal, ela respondia: “Não… já que o senhor insiste.” Uma afirmação como esta, baseada apenas em sua obediência a mim, nunca tinha êxito, como também não o alcançavam as numerosas injunções genéricas que lhe fazia em lugar das quais bem poderia ter repetido a simples sugestão de que ela ficasse boa.
Mas essa mesma pessoa que se apegava tão obstinadamente a seus sintomas em face da sugestão e só os abandonava em resposta à análise psíquica ou à convicção pessoal era, por outro lado, tão dócil quanto a melhor paciente encontrável em qualquer hospital, no que dizia respeito às sugestões irrelevantes - na medida em que se tratasse de assuntos não relacionados com sua doença. Já apresentei exemplos de sua obediência pós-hipnótica ao longo do relato do caso. Não me parece haver nada de contraditório nesse comportamento. Também aqui a idéia mais forte estava destinada a se afirmar. Se penetrarmos no mecanismo das “idées fixes”, constataremos que se acham baseadas e apoiadas por tantas experiências, que atuam com tal intensidade, que não nos podemos surpreender ao descobrir que essas idéias são capazes de opor uma resistência bem-sucedida à idéia contrária apresentada pela sugestão, que só está revestida de poderes limitados. Apenas de um cérebro verdadeiramente patológico é que se poderiam varrer por mera sugestão produtos tão bem fundamentados de eventos psíquicos intensos.
Foi enquanto estudava as abulias da Sra. von N. que comecei a ter sérias dúvidas quanto à validade da asserção de Bernheim de que “tout est dans la suggestion” |“tudo está na sugestão”| e sobre a dedução do seu sagaz amigo Delboeuf: “Comme quoi il n’y a pas d’hypnotisme” |“Sendo assim, não existe o que se chama de hipnotismo”|. E até hoje não posso compreender como se pode supor que, apenas levantando um dedo e dizendo uma vez “durma”, eu tinha criado na paciente o estado psíquico peculiar em que sua memória tinha acesso a todas as suas experiências psíquicas. Talvez eu tenha evocado esse estado com minha sugestão, mas não o criei, visto que suas características - que, aliás, são encontradas universalmente - foram uma grande surpresa para mim.
O relato do caso esclarece suficientemente a maneira como o trabalho terapêutico foi conduzido durante o sonambulismo. Como é praxe na psicoterapia hipnótica, lutei contra as representações patológicas da paciente por meio de garantias e proibições e apresentando toda espécie de representações opostas. Mas não me contentei com isso. Investiguei a gênese dos sintomas individuais a fim de poder combater as premissas sobre as quais se erguiam as representações patológicas. No curso dessa análise costumava acontecer que a paciente expressava verbalmente, com a mais violenta agitação, assuntos cujo afeto associado até então só se manifestara como uma expressão de emoção. |ver em [1].| Não sei dizer quanto do êxito terapêutico, em cada situação, deveu-se ao fato de eu ter eliminado o sintoma por sugestão in statu nascendi, e quanto se deveu à transformação do afeto por ab-reação, já que combinei esses dois fatores terapêuticos. Por conseguinte, este caso não pode ser rigorosamente utilizado como prova da eficácia terapêutica do método catártico; ao mesmo tempo, devo acrescentar que só os sintomas de que fiz uma análise psíquica foram de fato eliminados de forma permanente.
De modo geral o êxito terapêutico foi considerável, mas não duradouro. A tendência da paciente a adoecer de forma semelhante sob o impacto de novos traumas não foi afastada. Qualquer um que desejasse empreender a cura definitiva de um caso de histeria como este teria que penetrar mais a fundo do que eu o fiz, em minha tentativa, no complexo de fenômenos. A Sra. von N. era, sem dúvida, uma personalidade com grave hereditariedade neuropática. Parece provável que não pode haver histeria independente de uma predisposição dessa natureza. Mas, por outro lado, a predisposição sozinha não faz a histeria. Deve haver razões que a trazem à tona, e, na minha opinião, essas razões devem ser apropriadas: a etiologia é de natureza específica. Já tive ocasião de mencionar que, na Sra. von N., os afetos pertinentes a um grande número de experiências traumáticas tinham ficado retidos, e que a atividade dinâmica de sua memória fazia aflorar à sua mente ora um, ora outro desses traumas. Aventurar-me-ei agora a formular uma explicação do motivo por que ela retinha os afetos dessa maneira. Esse motivo, é verdade, estava ligado a sua predisposição hereditária. Por um lado, seus sentimentos eram muito intensos; ela possuía uma natureza veemente, capaz das mais fortes paixões. Por outro, desde a morte do marido, tinha vivido em completa solidão mental; a perseguição que lhe moveram os parentes a havia tornado desconfiada dos amigos, e ela ficou atentamente em guarda para impedir que qualquer pessoa adquirisse demasiada influência sobre suas ações. O círculo de suas obrigações era muito amplo, e ela realizava sozinha todo o trabalho mental que estas lhe impunham, sem um amigo ou confidente, quase isolada da família e prejudicada por sua conscienciosidade, sua tendência a se atormentar e também, muitas vezes, pelo desamparo natural da mulher. Em suma, o mecanismo da retenção de grandes quantidades de excitação, independente de tudo o mais, não pode ser desprezado neste caso. Baseava-se em parte nas circunstâncias de sua vida, e em parte em sua predisposição natural. Sua aversão, por exemplo, a dizer qualquer coisa sobre si mesma era tão grande, que, como notei com assombro, em 1891, nenhum dos visitantes diários que iam à sua casa percebia que ela estava doente nem tinha consciência de que eu era seu médico.
Será que isso esgota a etiologia deste caso de histeria? Penso que não, pois, na época de seus dois tratamentos, eu ainda não levantara em minha própria mente as questões a que é preciso responder antes que seja possível uma explicação completa de um caso como este. Sou agora de opinião que deve ter havido algum fator adicional para provocar a irrupção da doença precisamente nestes últimos anos, considerando-se que as condições etiológicas operantes tinham estado presentes durante muitos anos anteriormente. Também me ocorreu que, dentre todas as informações íntimas que me foram dadas pela paciente, houve uma ausência completa do elemento sexual, que é, afinal de contas, passível mais do que qualquer outro de ocasionar traumas. É impossível que suas excitações nesse campo não tivessem deixado quaisquer vestígios; o que me foi permitido ouvir foi, sem dúvida, uma editio in usum delphini |uma edição expurgada| da história de sua vida. A paciente comportava-se com o maior e mais natural senso de decoro, a julgar pelas aparências, sem nenhum traço de pudicícia. Quando, porém, reflito sobre a reserva com que me narrou, sob hipnose, a pequena aventura de sua empregada no hotel, não posso deixar de suspeitar de que essa mulher, que era tão passional e tão capaz de sentimentos fortes, não tenha vencido suas necessidades sexuais sem grandes lutas, e que, por vezes, suas tentativas de suprimir essa pulsão, que é de todas a mais poderosa, tinham-na exposto a seu grave esgotamento mental. Uma vez, ela admitiu que ainda não se havia casado de novo porque, em vista da sua grande fortuna, não podia dar crédito ao desinteresse de seus pretendentes e porque se recriminaria por prejudicar as expectativas de suas duas filhas com um novo matrimônio.
Cabe-me fazer mais uma observação antes de encerrar o caso clínico da Sra. von N. O Dr. Breuer e eu a conhecíamos razoavelmente bem e há bastante tempo, e costumávamos sorrir ao comparar seu caráter com o quadro da psique histérica que pode ser acompanhado desde os primeiros tempos por meio dos trabalhos e das opiniões dos médicos. Nós tínhamos aprendido, a partir de nossas observações da Sra. Caecilie M., que o tipo mais grave de histeria pode coexistir com dons da natureza mais rica e mais original - uma conclusão mais do que comprovada na biografia de mulheres eminentes na história e na literatura. Da mesma forma, a Sra. Emmy von N. nos deu um exemplo de como a histeria é compatível com um caráter impecável e um modo de vida bem orientado. A mulher que viemos a conhecer era admirável. A seriedade moral com que encarava suas obrigações, sua inteligência e energia, que não eram inferiores às de um homem, e seu alto grau de instrução e de amor à verdade nos impressionaram grandemente, enquanto seu generoso cuidado para com o bem-estar de todos os seus dependentes, sua humildade de espírito e o requinte de suas maneiras revelaram também suas qualidades de verdadeira dama. Descrever essa mulher como “degenerada” seria distorcer por completo o significado desse termo. Faríamos bem em distinguir o conceito de “predisposição” do de “degenerescência” tais como aplicados às pessoas; de outra forma, ver-nos-emos forçados a admitir que a humanidade deve uma grande parcela de suas maiores realizações ao esforço de “degenerados”.
Devo igualmente confessar que não vejo na história da Sra. von N. nenhum sinal da “ineficiência psíquica” à qual Janet atribui a gênese da histeria. De acordo com ele, a predisposição histérica consiste numa restrição anormal do campo da consciência (em virtude da degenerescência hereditária), que resulta no desprezo por grupos inteiros de representações e, mais tarde, numa desintegração do ego e na organização de personalidades secundárias. Se assim fosse, o que resta do ego após a retirada dos grupos psíquicos histericamente organizados seria, por necessidade, também menos eficiente do que um ego normal; e de fato, de acordo com Janet, o ego na histeria é afligido por estigmas psíquicos, condenado ao monoideísmo e incapaz dos atos volitivos da vida cotidiana. Janet, julgo eu, cometeu aqui o erro de promover o que constituem os efeitos secundários das alterações da consciência decorrentes da histeria à posição de determinantes primários da histeria. O assunto merece maior consideração em outro trecho, mas na Sra. von N. não havia qualquer sinal de tal ineficiência. Por ocasião de seus piores momentos, ela era e continuou a ser capaz de desempenhar seu papel na administração de uma grande empresa industrial, de manter uma vigilância constante sobre a educação das filhas e de manter sua correspondência com pessoas preeminentes do mundo intelectual - em suma, de cumprir com suas obrigações bastante bem para que sua doença permanecesse oculta. Inclino-me a acreditar, portanto, que tudo isso envolvia com excesso considerável de eficiência, que talvez não pudesse ser mantido por muito tempo e estava fadado a levar ao esgotamento - a uma “misère psychologique” |“empobrecimento psicológico”| secundária. Parece provável que algumas perturbações desse tipo em sua eficiência estivessem começando a se fazer sentir na época em que a vi pela primeira vez, mas, seja como for, uma histeria grave estivera presente por muitos anos antes do aparecimento dos sintomas de esgotamento.

CASO 3 - MISS LUCY R., 30 ANOS (FREUD)

No fim do ano de 1892, um colega conhecido meu encaminhou-me uma jovem que estava sendo tratada por ele de rinite supurativa cronicamente recorrente. Verificou-se em seguida que a obstinada persistência do problema da jovem se devia a uma cárie do osso etmóide. Ultimamente, ela se vinha queixando de alguns sintomas novos que o competente clínico não pôde mais continuar a atribuir a uma afecção local. Ela perdera todo o sentido do olfato e era quase continuamente perseguida por uma ou duas sensações olfativas subjetivas, que lhe eram muito aflitivas. Além disso, estava desanimada e fatigada e se queixava de peso na cabeça, pouco apetite e perda de eficiência.
A jovem, que vivia como governanta na casa do diretor-gerente de uma fábrica nos arredores de Viena, vinha visitar-me de vez em quando em meus horários de consulta. Era de nacionalidade inglesa. Tinha uma constituição delicada, de pigmentação deficiente, mas gozava de boa saúde, salvo por sua afecção nasal. Suas primeiras declarações confirmaram o que o médico me dissera. Sofria de depressão e fadiga e era atormentada por sensações subjetivas do olfato. Quanto aos sintomas histéricos, apresentava uma analgesia geral mais ou menos definida, sem nenhuma perda da sensibilidade tátil, e um exame grosseiro (com a mão) não revelou nenhuma restrição do campo visual. O interior de seu nariz era inteiramente analgésico e sem reflexos: ela era sensível à pressão tátil no local, mas a percepção propriamente dita do nariz como órgão dos sentidos estava ausente, tanto para estímulos específicos quanto para outros (por exemplo, amônia, ou ácido acético). O catarro nasal purulento estava então numa fase de melhora.
Em nossas primeiras tentativas de tornar a doença inteligível, foi necessário interpretar as sensações olfativas subjetivas, visto que eram alucinações recorrentes, como sintomas histéricos crônicos. Sua depressão talvez fosse o afeto ligado ao trauma, e deveria ser possível encontrar uma experiência em que esses odores, que agora se haviam tornado subjetivos, tivessem sido objetivos. Essa experiência devia ter sido o trauma que as sensações recorrentes do olfato simbolizavam na memória. Talvez seja mais correto considerar as alucinações olfativas recorrentes, em conjunto com a depressão que as acompanhava, como equivalentes de um ataque histérico. A natureza das alucinações recorrentes, a rigor, torna-as inadequadas para desempenharem o papel de sintomas crônicos. Mas na verdade essa questão não surgiunum caso como este, que mostrava apenas um desenvolvimento rudimentar. Era essencial, contudo, que as sensações subjetivas do olfato tivessem tido uma origem especializada de uma natureza que admitisse terem-se derivado de algum objeto real bem específico.
Essa expectativa foi logo realizada. Quando lhe perguntei qual era o odor pelo qual era mais constantemente perturbada, ela me respondeu: “Um cheiro de pudim queimado.” Assim, eu só precisava presumir que um cheiro de pudim queimado tinha de fato ocorrido na experiência que atuara como trauma. É muito incomum, sem dúvida, que as sensações olfativas sejam escolhidas como símbolos mnêmicos de traumas, mas não foi difícil explicar essa escolha. A paciente vinha sofrendo de rinite supurativa e, em conseqüência disso, sua atenção estava especialmente enfocada no nariz e nas sensações nasais. O que eu sabia das circunstâncias da vida da paciente limitava-se ao fato de que as duas crianças de quem ela cuidava não tinham mãe; esta morrera alguns anos antes em decorrência de uma moléstia aguda.
Resolvi então fazer do cheiro de pudim queimado o ponto de partida da análise. Descreverei o curso dessa análise como se tivesse ocorrido em condições favoráveis. De fato, o que deveria ter sido uma única sessão estendeu-se por várias. Isso se verificou porque a paciente só podia visitar-me em meus horários de consulta, quando eu só lhe podia dedicar pouco tempo. Além disso, uma única discussão dessa natureza costumava estender-se por mais de uma semana, visto que as obrigações dela não lhe permitiam fazer a longa viagem da fábrica até minha casa com grande freqüência. Costumávamos, portanto, interromper nossa conversa em meio a seu curso e retomar o fio da meada no mesmo ponto na vez seguinte.
Miss Lucy R. não entrou em estado de sonambulismo quando tentei hipnotizá-la. Assim, abri mão do sonambulismo e conduzi toda a sua análise enquanto ela se encontrava num estado que, a rigor, talvez tenha diferido muito pouco de um estado normal.

Terei que falar com mais detalhes sobre esse aspecto de meu procedimento técnico. Quando, em 1889, visitei as clínicas de Nancy, ouvi o Dr. Liébeault, o doyen (decano) do hipnotismo, dizer: “Se ao menos tivéssemos meios de pôr todos os pacientes em estado de sonambulismo, a terapia hipnótica seria a mais poderosa de todas.” Na clínica de Bernheim chegava quase a parecer que essa arte realmente existia e que era possível aprendê-la com Bernheim. Mas logo que tentei praticá-la com meus próprios pacientes, descobri que pelo menos meus poderes estavam sujeitos a graves limitações e que, quando o sonambulismo não era provocado num paciente nas três primeiras tentativas, eu não tinha nenhum meio de induzi-lo. A percentagem de casos acessíveis ao sonambulismo era muito menor, em minha experiência, do que a relatada por Bernheim.
Vi-me, por conseguinte, defrontado com a opção de abandonar o método catártico na maioria dos casos que lhe seriam apropriados ou aventurar-me à experiência de empregar esse método sem o sonambulismo, quando a influência hipnótica fosse leve ou mesmo quando sua existência fosse duvidosa. Parecia-me indiferente qual o grau de hipnose - de acordo com uma ou outra das escalas propostas para medi-la - que era alcançado nesse estado sonambúlico, pois, como sabemos, de qualquer modo cada uma das várias formas assumidas pela sugestionabilidade independe das outras, e a obtenção da catalepsia, de movimentos automáticos e assim por diante não funciona nem favorecendo, nem prejudicando aquilo de que eu precisaria para minhas finalidades, ou seja, que o despertar das lembranças esquecidas fosse facilitado. Além disso, logo abandonei a prática de fazer testes para indicar o grau de hipnose alcançado, visto que num bom número de casos isso provocava a resistência dos pacientes e abalava sua confiança em mim, da qual eu necessitava para executar o trabalho psíquico mais importante. Ademais, logo comecei a ficar cansado de proferir asseguramentos e ordens tais como “Você vai dormir… durma!” e de ouvir o paciente, como tantas vezes acontecia quando o grau de hipnose era leve, reclamar comigo: “Mas doutor, eu não estou dormindo”, e de ter então que fazer distinções sutis: “Não me refiro a um sono comum, mas sim à hipnose. Como vê, você está hipnotizado, não consegue abrir os olhos”, etc., “e de qualquer modo, não há necessidade de que você adormeça”, e assim por diante. Estou certo de que muitos outros médicos que praticam a psicoterapia sabem sair dessas dificuldades de forma mais hábil do que eu. Se assim for, hão de poder adotar algum outro método que não o meu. Parece-me, contudo, que quando alguém espera com tanta freqüência descobrir-se numa situação embaraçosa pelo uso de determinada palavra, será prudente evitar tanto a palavra quanto o embaraço. Quando, portanto, minha primeira tentativa não me conduzia nem ao sonambulismo nem a um grau de hipnose que acarretasse modificações físicas marcantes, eu abandonava de modo ostensivo a hipnose e pedia apenas “concentração”; e ordenava ao paciente que se deitasse e deliberadamente fechasse os olhos como meio de alcançar essa “concentração”. É possível que, dessa forma, eu obtivesse com apenas um ligeiro esforço o mais profundo grau de hipnose possível de ser alcançado naquele caso particular.
Mas, ao abrir mão do sonambulismo, talvez me estivesse privando de uma precondição sem a qual o método catártico não parecia utilizável, pois esse método era claramente baseado na possibilidade de os pacientes, em seu estado alterado de consciência, terem acesso às lembranças e serem capazes de identificar ligações que não pareciam estar presentes em seu estado de consciência normal. Se a extensão sonambúlica da memória estivesse ausente, também não haveria nenhuma possibilidade de estabelecer quaisquer causas determinantes que o paciente pudesse apresentar ao médico como algo desconhecido para ele (o paciente); e está claro que são precisamente as lembranças patogênicas que, como já tivemos ocasião de dizer em nossa “Comunicação Preliminar” |ver em [1]|, se acham “ausentes da lembrança dos pacientes quando em estado psíquico normal, ou só se fazem presentes de forma bastante sumária”.
Poupei-me desse novo embaraço ao me lembrar de que eu próprio vira Bernheim dar provas de que as lembranças dos acontecimentos ocorridos durante o sonambulismo são apenas aparentemente esquecidas no estado de vigília, e podem ser revividas por meio de uma ordem delicada e de uma pressão com a mão, destinada a indicar um estado diferente de consciência. Ele havia, por exemplo, dado a uma mulher em estado de sonambulismo uma alucinação negativa, no sentido de que ele não estava mais presente, e depois se esforçava por chamar a atenção dela para si próprio de diversas maneiras diferentes, inclusive algumas de natureza decididamente agressiva. Não teve sucesso. Depois de ela ser despertada, ele lhe pediu que contasse o que lhe fizera enquanto ela achava que ele não estava mais lá. Surpresa, ela respondeu nada saber a esse respeito. Mas ele não aceitou essa resposta, insistindo em que ela podia recordar-se de tudo, e pôs a mão em sua testa a fim de ajudá-la a lembrar-se. E vejam só! Ela acabou por descrever tudo o que aparentemente não havia percebido durante o sonambulismo e aparentemente não havia recordado no estado de vigília.
Essa surpreendente e instrutiva experiência me serviu de modelo. Resolvi partir do pressuposto de que meus pacientes sabiam tudo o que tinha qualquer significado patogênico e que se tratava apenas de uma questão de obrigá-los a comunicá-lo. Assim, quando alcançava um ponto em que, depois de formular ao paciente uma pergunta como “Há quanto tempo tem este sintoma?” ou “Qual foi sua origem?”, recebia como resposta “Realmente não sei”, eu prosseguia da seguinte maneira. Colocava a mão na testa do paciente ou lhe tomava a cabeça entre a mãos e dizia: “Você pensará nisso sob a pressão da minha mão. No momento em que eu relaxar a pressão, verá algo à sua frente, ou algo aparecerá em sua cabeça. Agarre-o. Será o que estamos procurando. - E então, o que foi que viu ou o que lhe ocorreu?”

Nas primeiras ocasiões em que usei esse método (não foi com Miss Lucy R.), eu próprio me surpreendi ao constatar que ele me proporcionava precisamente os resultados de que eu necessitava. E posso afirmar com segurança que quase nunca me deixou em dificuldades desde então. Sempre apontou o caminho que a análise deveria seguir e me permitiu conduzir cada uma dessas análises até o fim sem o emprego do sonambulismo. Afinal fiquei tão confiante que, quando os pacientes respondiam “não vejo nada” ou “nada me ocorreu”, podia descartar essa afirmação como uma impossibilidade e assegurar-lhes que por certo haviam ficado conscientes do que se desejava, mas se recusavam a acreditar que fosse aquilo e o rejeitavam. Dizia-lhes que estava pronto a repetir o método quantas vezes desejassem e que eles veriam a mesma coisa todas as vezes. Invariavelmente, eu tinha razão. Os pacientes ainda não tinham aprendido a relaxar sua faculdade crítica. Haviam rejeitado a lembrança que surgira ou a idéia que lhes tinha ocorrido, sob a alegação de que não servia e era uma interrupção irrelevante. E depois que a relatavam a mim, ela sempre revelava ser aquilo que se desejava. Às vezes, quando após três ou quatro pressões eu tinha por fim extraído a informação, o paciente replicava: “Aliás, eu de fato já sabia disso desde a primeira vez, mas era justamente o que eu não queria dizer”, ou então, “Eu tinha esperança de que não fosse isso”.
Era trabalhosa essa questão de ampliar o que se supunha ser uma consciência limitada - muito mais trabalhosa, pelo menos, do que uma investigação durante o sonambulismo. Não obstante, tornou-se independente do sonambulismo e me proporcionou uma compreensão dos motivos que muitas vezes determinam o “esquecimento” das lembranças. Posso afirmar que esse esquecimento é muitas vezes intencional e desejado, e seu êxito nunca é mais do que aparente.
Achei ainda mais surpreendente, talvez, que pelo mesmo método fosse possível fazer retornarem números e datas que, a um exame superficial, há muito tinham sido esquecidos, e assim revelar como a memória pode ser inesperadamente precisa.
O fato de, ao procurarmos números e datas, nossa escolha ser tão limitada permite-nos chamar em nosso auxílio uma proposição que nos é familiar a partir da teoria da afasia, ou seja, que reconhecer alguma coisa é uma tarefa mais leve para a memória do que pensar nela espontaneamente. Assim, quando o paciente é incapaz de recordar-se do ano, mês ou dia em que um fato particular ocorreu, podemos repetir-lhe os números dos anos possivelmente relevantes, os nomes dos doze meses e os trinta e um números dos dias do mês, assegurando-lhe que, quando chegarmos ao número certo, ou ao nome certo, seus olhos se abrirão por sua livre vontade ou ele sentirá qual é o certo. Na grande maioria dos casos, de fato o paciente se decide por uma data particular. Com grande freqüência (como no caso da Sra. Caecilie M.) é possível comprovar, por documentos do período em questão, que a data foi reconhecida de forma correta, enquanto em outros casos e em outras ocasiões a indiscutível exatidão da data escolhida pode ser inferida pelo contexto dos fatos recordados. Por exemplo, depois que uma paciente teve sua atenção atraída para a data a que se tinha chegado por esse método de “contagem”, ela disse: “Ora, esse é o aniversário do meu pai!” e acrescentou: “É claro! foi por ser aniversário dele que eu estava esperando o acontecimento de que estávamos falando”.
Aqui, só de passagem posso tocar nesse tema. A conclusão que extraí de todas essas observações foi que as experiências que desempenharam um papel patogênico importante, junto com todos os seus concomitantes secundários, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas - quando ele é incapaz de relembrá-las.

Após essa longa mais inevitável digressão, voltarei ao caso de Miss Lucy R. Como disse, portanto, minhas tentativas de hipnose com ela não produziram o sonambulismo. Ela simplesmente ficava deitada, quieta, num estado acessível a um discreto grau de influência, com os olhos fechados o tempo todo, as feições um pouco rígidas e sem mexer nem as mãos nem os pés. Perguntei-lhe se conseguia lembrar-se da ocasião em que sentira pela primeira vez o cheiro de pudim queimado. - “Ah, sim, sei exatamente. Foi há uns dois meses, dois dias antes do meu aniversário. Estava com as crianças na sala de aula e brincava de cozinhar com elas” (eram duas meninas). - “Chegou uma carta que acabara de ser entregue pelo carteiro. Vi pelo carimbo postal e pela letra que era da minha mãe, em Glasgow, e queria abri-la e lê-la, mas as crianças se precipitaram sobre mim, arrancaram a carta de minhas mãos e gritaram: ‘Não, você não vai ler agora! Deve ser pelo seu aniversário, vamos guardar a carta para você!’ Enquanto as crianças faziam essa brincadeira comigo, houve de repente um cheiro forte. Elas haviam esquecido o pudim que estavam assando, e ele estava queimando. Desde então tenho sido perseguida pelo cheiro, que está sempre presente e fica mais forte quando estou agitada”.
- “Você vê essa cena com nitidez diante de seus olhos?” - “Em tamanho natural, exatamente como a experimentei.” - “Que poderia haver a respeito dela que fosse tão perturbador?” - “Fiquei emocionada porque as crianças foram muito afetuosas comigo.” - “E não o eram sempre?” - “Sim… mas justamente quando recebi a carta de minha mãe.” - “Não compreendo por que há um contraste entre a afeição das crianças e a carta de sua mãe, pois é o que você parece estar sugerindo.” - “Eu estava pretendendo voltar para a casa de minha mãe, e pensar em deixar aquelas crianças queridas me deixava muito triste.” - “Qual é o problema com sua mãe? Tem se sentido sozinha e mandou buscar você? Ou estava doente na ocasião, e você esperava notícias dela?” - “Não; ela não é muito forte, mas não está exatamente doente, e tem alguém que lhe faz companhia.” - “Então por que você precisava deixar as crianças?” - “Não podia mais suportar ficar naquela casa. A empregada, a cozinheira e a governanta francesa pareciam pensar que eu me estava colocando acima do meu lugar. Aliaram-se numa pequena intriga contra mim e disseram toda espécie de coisas a meu respeito ao avô das crianças, e não obtive tanto apoio quanto esperava dos dois cavalheiros quando me queixei a eles. Assim, notifiquei o Diretor (o pai das crianças) de que pretendia ir embora. Ele respondeu de maneira muito amável que seria melhor eu pensar mais sobre o assunto durante umas duas ou três semanas, antes de dar-lhe minha decisão final. Eu estava nessa situação de incerteza na época e achava que iria deixar a casa, mas acabei ficando.” - “Havia algo em particular, afora a afeição delas por você, que a ligasse às crianças?” - “Havia. A mãe delas era parente distante da minha mãe, e eu lhe prometera em seu leito de morte que me devotaria com todas as minhas forças às crianças, que não as deixaria e que ocuparia o lugar da mãe junto a elas. Ao dar a notificação de minha saída eu havia quebrado essa promessa”.
Isso pareceu completar a análise da sensação objetiva de cheiro apresentada pela paciente. De fato, ela mostrara ter sido, em sua origem, uma sensação objetiva, intimamente associada a uma experiência - uma pequena cena - em que dois afetos antagônicos tinham estado em conflito: sua tristeza por deixar as crianças e as desconsiderações que, não obstante, a estavam impelindo a decidir-se por aquele curso de ação. A carta da mãe naturalmente a havia feito relembrar suas razões para tomar essa decisão, visto que era sua intenção juntar-se a ela ao partir. O conflito entre seus afetos promovera o momento da chegada da carta à categoria de um trauma, e a sensação de cheiro associada a esse trauma persistiu como seu símbolo. Ainda era necessário explicar por que, de todas as percepções sensoriais proporcionadas pela cena, ela havia escolhido aquele odor como símbolo. Eu já estava preparado, contudo, para recorrer à afecção crônica do nariz de minha paciente para ajudar a explicar esse ponto. Em resposta a uma pergunta direta, disse-me que, justamente naquela época, estava mais uma vez com um resfriado nasal tão forte que mal podia sentir o cheiro do que quer que fosse. Entretanto, quando em seu estado de agitação, percebeu o cheiro do pudim queimado, que transpôs a barreira da perda organicamente determinada de seu sentido de olfato.
Mas não fiquei satisfeito com a explicação assim alcançada. Tudo parecia muito plausível, mas havia algo que me escapava, alguma razão adequada por que essas agitações e esse conflito de afetos levaram à histeria, e não a qualquer outra coisa. Por que tudo não havia permanecido no nível da vida psíquica normal? Em outras palavras, qual era a justificativa para a conversão que havia ocorrido? Por que ela não se recordava sempre da própria cena, em vez da sensação associada que ela isolava como o símbolo da lembrança? Tais questões poderiam parecer curiosas demais e supérfluas, se estivéssemos lidando com uma histérica de longa data em quem o mecanismo da conversão fosse habitual. Mas não fora senão quando do advento desse trauma, ou pelo menos dessa pequena história de perturbações, que a moça ficara histérica.
Ora, eu já sabia, pela análise de casos semelhantes, que antes de a histeria poder ser adquirida pela primeira vez, uma condição essencial precisa ser preenchida: uma representação precisa ser intencionalmente recalcada da consciência e excluída das modificações associativas. Em minha opinião, esse recalcamento intencional constitui também a base para a conversão total ou parcial da soma de excitação. A soma de excitação, estando isolada da associação psíquica, encontra ainda com mais facilidade seu caminho pela trilha errada para a inervação somática. A base do próprio recalcamento só pode ser uma sensação de desprazer, uma incompatibilidade entre a representação isolada a ser recalcada e a massa dominante de representações que constituem o ego. A representação recalcada vinga-se, contudo, tornando-se patogênica.
Por conseguinte, do fato de Miss Lucy R. ter sucumbido à conversão histérica no momento em questão, inferi que, entre os determinantes do trauma, devia ter havido um que ela intencionalmente procurara deixar na obscuridade e se esforçara por esquecer. Se sua afeição pelas crianças e sua sensibilidade em relação aos outros membros da casa fossem consideradas em conjunto, só se poderia tirar uma conclusão. Fui ousado o bastante para informar minha paciente dessa interpretação. Disse-lhe: “Não consigo conceber que essas sejam todas as razões para seus sentimentos a respeito das crianças. Creio que, na verdade, você está apaixonada por seu patrão, o Diretor, embora talvez sem que você própria esteja consciente disso, e que nutre a esperança secreta de tomar de verdade o lugar da mãe delas. E devemos também recordar a sensibilidade que você agora tem em relação às criadas, após ter vivido pacificamente com elas durante anos. Você teme que elas suspeitem de suas esperanças e se divirtam à sua custa.
Ela respondeu em seu habitual estilo lacônico: “Sim, acho que isso é verdade.” - “Mas, se você sabia que amava seu patrão, por que não me disse?” - “Não sabia… ou melhor, não queria saber. Queria tirar isso de minha cabeça e não pensar mais no assunto, e creio que ultimamente tenho conseguido.” - “Por que foi que você não estava disposta a admitir essa inclinação? Estava envergonhada de amar um homem?” - “De forma alguma, não sou assim tão pudica. De qualquer forma, não somos responsáveis por nossos sentimentos. Isso me foi aflitivo apenas porque ele é meu patrão e estou a seu serviço, morando em sua casa. Não sinto em relação a ele a mesma independência completa que sentiria em relação a qualquer outro. E depois, sou apenas uma moça pobre, e ele é um homem muito rico e de boa família. As pessoas iriam rir de mim se tivessem alguma idéia disso”.
A essa altura, ela não opôs nenhuma resistência a esclarecer a origem dessa inclinação. Disse-me que nos primeiros anos vivera feliz na casa, cumprindo com seus deveres e livre de quaisquer desejos irrealizáveis. Um dia, porém, seu patrão, um homem sério e sobrecarregado de trabalho, cujo comportamento em relação a ela sempre fora reservado, iniciou uma discussão sobre os moldes em que as crianças deveriam ser educadas. Ele foi menos formal e mais cordial do que de costume e lhe disse o quanto dependia dela para cuidar de seus filhos órfãos; e ao dizer isso, olhou-a de modo significativo… O amor da jovem por ele havia começado nesse momento, e ela se permitira até mesmo apoiar-se nas esperanças gratificantes que havia baseado nessa conversa. Mas quando não houve nenhum outro progresso, e depois de esperar em vão por outra hora íntima de troca de opiniões, ela decidiu banir tudo aquilo da mente. Miss Lucy concordou inteiramente comigo em que era provável que o olhar por ela notado durante a conversa havia brotado dos pensamentos dele sobre a esposa, e reconheceu de maneira bem clara que não havia nenhuma perspectiva de que seus sentimentos por ele fossem de algum modo correspondidos.
Esperava que essa conversa trouxesse uma modificação fundamental em seu estado, mas por algum tempo isso não se verificou. Ela continuou desanimada e deprimida. Sentia-se um pouco revigorada pela manhã, graças ao tratamento hidropático que eu lhe receitara ao mesmo tempo. O cheiro de pudim queimado não desapareceu por completo, embora se tornasse menos freqüente e mais fraco. Só aparecia, disse-me ela, quando ficava extremamente agitada. A persistência desse símbolo mnêmico levou-me a suspeitar que, além da cena principal, ele havia assumido a representação dos numerosos traumas secundários associados àquela cena. Assim, procuramos alguma outra coisa que pudesse ter relação com o pudim queimado; penetramos na questão do atrito doméstico, do comportamento do avô e assim por diante, e à medida que o fazíamos o cheiro de queimado foi-se dissipando cada vez mais. Também durante essa época o tratamento foi interrompido por um tempo considerável, graças a um novo ataque de seu distúrbio nasal, que levou então à descoberta da cárie do etmóide |ver em [1]|.
Ao retornar, contou ela que no Natal recebera muitos presentes dos dois cavalheiros da casa e até das empregadas, como se todos estivessem ansiosos por fazer as pazes com ela e apagar de sua lembrança os conflitos dos últimos meses. Mas esses sinais de boas intenções não haviam causado nenhuma impressão nela.
Quando lhe perguntei mais uma vez sobre o cheiro de pudim queimado, ela me informou que ele havia desaparecido, mas que agora vinha sendo importunada por outro cheiro semelhante, parecido com o de fumaça de charuto. Esse cheiro também estivera presente antes, mas fora encoberto, por assim dizer, pelo cheiro do pudim. Agora aparecera por si mesmo.
Não fiquei muito satisfeito com os resultados do tratamento. O que acontecera fora exatamente o que sempre se consegue com um tratamento sintomático: eu apenas eliminara um sintoma só para que seu lugar fosse ocupado por outro. Entretanto, não hesitei em dedicar-me à tarefa de eliminar esse novo símbolo mnêmico através da análise.
Mas dessa vez ela não sabia de onde provinha a sensação olfativa subjetiva - em que ocasião importante ela fora uma sensação objetiva. “Todos os dias as pessoas fumam em nossa casa,” disse, “e realmente não sei se o cheiro que sinto se refere a alguma ocasião especial”. Insisti então em que ela tentasse recordar sob a pressão de minha mão. Já tive oportunidade de mencionar |ver em [1]| que suas lembranças possuíam a qualidade de uma nitidez plástica, que ela era um tipo “visual”. E de fato, por insistência minha, um quadro surgiu gradativamente diante dela, a princípio de maneira hesitante e fragmentada. Era a sala de jantar de sua casa, onde ela esperava com as crianças que os dois cavalheiros voltassem da fábrica para almoçar. “Agora estamos todos sentados à mesa: os cavalheiros, a governanta francesa, a empregada, as crianças e eu. Mas isso é o que acontece todos os dias.” - “Continue a olhar para o quadro; ele se desenvolverá e ficará mais específico.” - “Sim, há um convidado. É o contador-chefe. É um senhor e é tão afeiçoado às crianças como se fossem seus próprios netos. Mas ele vem tantas vezes almoçar que também não há nada de especial nisso.” - “Tenha paciência e continue a olhar para o quadro; é certo que acontecerá alguma coisa.” - “Não está acontecendo nada. Estamos nos levantando da mesa; as crianças se despedem e sobem conosco, como de costume, para o segundo andar.” - “E então?” - “Ora, afinal de contas é uma ocasião especial. Agora reconheço a cena. Quando as crianças se despedem, o contador tenta beijá-las. Meu patrão se exalta e chega a gritar com ele: ‘Não beije as crianças!’ Sinto uma punhalada no coração, e como os cavalheiros já estão fumando, a fumaça dos charutos fica em minha memória.”
Essa, portanto, era uma segunda cena, mais profunda, que à semelhança da primeira funcionou como um trauma e deixou atrás de si um símbolo mnêmico. Mas a que essa cena devera sua eficácia? - “Qual das duas cenas foi a primeira”, perguntei, “essa ou a do pudim queimado?” - “A cena que acabo de lhe contar foi a primeira, com uma diferença de quase dois meses.” - “Então por que você sentiu essa punhalada quando o pai das crianças deteve o velho? A reprimenda dele não visava a você.” - “Não foi certo da parte dele gritar com um senhor idoso, que era um bom amigo e, ainda por cima, um convidado. Ele poderia ter dito aquilo com delicadeza.” - “Então foi só a violência com que ele se expressou que magoou você? Você se sentiu constrangida por ele? Ou talvez tenha pensado: ‘Se ele pode ser tão violento por uma coisa tão insignificante com um velho amigo e convidado, quanto mais seria comigo se eu fosse mulher dele.’” - “Não, não é isso.” - “Mas teve algo a ver com a violência dele, não foi?” - “Teve, em relação ao fato de as crianças serem beijadas. Ele jamais gostou disso.”
E nesse momento, sob a pressão de minha mão, emergiu a lembrança de uma terceira cena, ainda mais antiga, que fora o trauma realmente atuante e que dera à cena com o contador-chefe sua eficácia traumática. Ainda acontecera, alguns meses antes, que uma senhora conhecida do patrão fora visitá-los e, ao sair, beijara as duas crianças na boca. O pai delas, que se achava presente, conseguira refrear-se para não dizer nada à senhora, mas depois que ela havia partido, sua fúria explodira sobre a cabeça da infeliz governanta. Disse que a responsabilizaria se alguém beijasse as crianças na boca, que era seu dever não permitir tal coisa e que ela estaria incidindo numa falta para com seu dever se o permitisse; se aquilo acontecesse de novo, ele confiaria a educação das crianças a outras mãos. Isso havia acontecido numa ocasião em que Miss Lucy ainda supunha que ele a amava, e estava na expectativa de uma repetição de sua primeira conversa amistosa. A cena esmagara suas esperanças. Ela dissera consigo mesma: “Se ele pode enfurecer-se comigo dessa maneira e fazer tais ameaças por um assunto tão banal, e em relação ao qual, além disso, não tenho a mínima responsabilidade, devo ter cometido um erro. Ele não pode jamais ter tido quaisquer sentimentos ternos por mim, senão eles o teriam ensinado a tratar-me com maior consideração.” Foi obviamente a lembrança dessa cena aflitiva que lhe veio quando o contador-chefe tentou beijar as crianças e foi repreendido pelo pai destas últimas.
Depois dessa última análise, quando, dois dias depois, Miss Lucy tornou a me visitar, não pude deixar de lhe perguntar o que lhe acontecera para deixá-la tão feliz. Parecia transfigurada. Estava sorridente e de cabeça erguida. Pensei por um momento que, afinal de contas, eu estava errado sobre a situação e a governanta das crianças tinha ficado noiva do Diretor. Mas ela desfez essa minha idéia. “Não aconteceu nada. Ocorre apenas que o senhor não me conhece. O senhor só me viu doente e deprimida. Em geral, sou sempre alegre. Quando acordei ontem pela manhã, não sentia mais aquele peso na cabeça, e desde então tenho-me sentido bem.” - “E o que acha de suas perspectivas na casa?” - “Tenho uma idéia bem clara sobre o assunto. Sei que não tenho nenhuma possibilidade e não vou ficar infeliz por isso.” - “E será que agora vai se dar bem com os empregados?” - “Acho que minha própria sensibilidade exagerada foi a responsável pela maior parte do que aconteceu.” - “E você ainda está apaixonada por seu patrão?” - “Sim, é claro que estou, mas isso não faz nenhuma diferença. Afinal, posso guardar comigo meus próprios pensamentos e sentimentos.”
Examinei-lhe então o nariz e verifiquei que sua sensibilidade à dor e sua excitabilidade reflexa tinham sido quase inteiramente restauradas. Ela também conseguia distinguir os odores, embora com insegurança e apenas se fossem fortes. Cabe-me deixar em aberto, contudo, a questão de saber até que ponto seu distúrbio nasal terá desempenhado um papel na redução de seu sentido do olfato.
Esse tratamento durou ao todo nove semanas. Quatro meses depois encontrei-me por acaso com a paciente numa de nossas estações de veraneio. Estava animada e assegurou-me que sua recuperação fora duradoura.


DISCUSSÃO

Não estou inclinado a subestimar a importância do caso que acabo de descrever, muito embora a paciente só estivesse sofrendo de uma histeria leve e benigna e houvesse apenas poucos sintomas em jogo. Pelo contrário, parece-me um fato instrutivo que mesmo uma doença como essa, tão improdutiva quando encarada como uma neurose, exigisse tantos determinantes psíquicos. Na realidade, quando considero esse caso clínico mais detidamente, fico tentado a vê-lo como um modelo exemplar de um tipo particular de histeria, ou seja, a forma dessa moléstia que pode ser contraída mesmo por uma pessoa de boa hereditariedade, como resultado de experiências apropriadas. Deve-se compreender que não me refiro, com isso, a uma histeria independente de qualquer predisposição já existente. É provável que tal histeria não exista. Mas só reconhecemos uma predisposição dessa natureza numa pessoa depois que ela se torna de fato histérica, pois antes disso não há provas da sua existência. A predisposição neuropática, tal como genericamente compreendida, é diferente. Já está marcada, antes da instalação da doença, pelo quantum da contaminação hereditária do sujeito ou pela soma de suas anormalidades psíquicas individuais. Até onde vão minhas informações, não havia em Miss Lucy R. nenhum traço de qualquer desses fatores. Sua histeria, portanto, pode ser descrita como adquirida, e não pressupôs nada além da posse do que é, provavelmente, uma tendência muito difundida - a tendência para adquirir a histeria. Ainda não temos quase nenhuma idéia de quais possam ser as características dessa tendência. Nos casos dessa espécie, contudo, a ênfase principal recai na natureza do trauma, embora, é claro, considerada em conjunto com a reação do sujeito ao mesmo. Para a aquisição da histeria, vem a ser um sine qua non o desenvolvimento de uma incompatibilidade entre o ego e alguma idéia a ele apresentada. Espero ter a possibilidade de indicar, em outro texto, como diferentes perturbações neuróticas emergem dos diversos métodos adotados pelo “ego” para escapar a essa incompatibilidade. O método histérico de defesa - para o qual, como vimos, é necessária a posse de uma tendência específica - reside na conversão da excitação em uma inervação somática; e a vantagem disso é que a idéia incompatível é forçada para fora do ego consciente. Em troca, essa consciência guarda então a reminiscência física surgida por meio da conversão (em nosso caso, as sensações subjetivas de olfato da paciente) e sofre por causa do afeto que se acha de forma mais ou menos clara ligado precisamente àquela reminiscência. A situação assim provocada passa então a não ser suscetível de modificação, pois a incompatibilidade que teria exigido uma eliminação do afeto não existe mais, graças ao recalque e à conversão. Assim, o mecanismo que produz a histeria representa, por um lado, um ato de covardia moral e, por outro, uma medida defensiva que se acha à disposição do ego. Com bastante freqüência temos de admitir que rechaçar as excitações crescentes provocando a histeria é, nessas circunstâncias, a coisa mais conveniente a fazer; com maior freqüência, naturalmente, temos que concluir que uma dose maior de coragem moral teria sido vantajosa para a pessoa em causa.
O momento traumático real, portanto, é aquele em que a incompatibilidade se impõe sobre o ego e em que este último decide repudiar a idéia incompatível. Essa idéia não é aniquilada por tal repúdio, mas apenas recalcada para o inconsciente. Quando esse processo ocorre pela primeira vez, passa a existir um núcleo e centro de cristalização para a formação de um grupo psíquico divorciado do ego - um grupo em torno do qual tudo o que implicaria uma aceitação da idéia incompatível passa então a se reunir. A divisão da consciência nesses casos de histeria adquirida é, portanto, deliberada e intencional. Pelo menos, é muitas vezes introduzida por um ato de volição, pois o resultado real é um pouco diferente do que o indivíduo pretendia. O que ele desejava era eliminar uma idéia, como se jamais tivesse surgido, mas tudo o que consegue fazer é isolá-la psiquicamente.
Na história de nossa atual paciente, o momento traumático foi o da explosão do patrão contra ela porque as crianças foram beijadas pela senhora. Por algum tempo, contudo, essa cena não teve nenhum efeito manifesto. (Pode ser que a hipersensibilidade e o desânimo da paciente tenham começando a partir dela, mas não posso afirmá-lo.) Seus sintomas histéricos só começaram depois, em momentos que podem ser descritos como “auxiliares”. O traço característico do momento auxiliar é, creio eu, que os dois grupos psíquicos divididos convergem temporariamente para ele, como fazem na consciência ampliada que ocorre no sonambulismo. No caso de Miss Lucy R., o primeiro dos momentos auxiliares, no qual ocorreu a conversão, foi a cena à mesa, quando o contador-chefe tentou beijar as crianças. Aqui a lembrança traumática estava desempenhando um papel: a paciente não se comportou como se se tivesse livrado de tudo o que se relacionava com sua dedicação ao patrão. (Na história de outros casos, esses diferentes momentos coincidem; a conversão ocorre como efeito imediato do trauma.)
O segundo momento auxiliar repetiu o mecanismo do primeiro de forma quase exata. Uma impressão poderosa reagrupou temporariamente a consciência da paciente, e a conversão mais uma vez seguiu a trilha que se abrira na primeira ocasião. É interessante notar que o segundo sintoma a se desenvolver camuflou o primeiro, de modo que este só foi percebido com clareza quando o segundo foi retirado do caminho. Também me parece que vale a pena fazer uma observação sobre o curso inverso que teve de ser seguido também pela análise. Tive a mesma experiência num grande número de casos; os sintomas surgidos posteriormente camuflaram os primeiros, e a chave de toda a situação estava apenas no último sintoma a ser alcançado pela análise.
O processo terapêutico, neste caso, consistiu em compelir o grupo psíquico que fora dividido a se reunir mais uma vez com a consciência do ego. Estranhamente, o êxito não acompanhou pari passu o volume de trabalho realizado. Foi só quando a última tarefa foi concluída que de repente ocorreu a recuperação.

CASO 4 - KATHARINA - (FREUD)

Nas férias de verão do ano de 189.. fiz uma excursão ao Hohe Tauern para que por algum tempo pudesse esquecer a medicina e, mais particularmente, as neuroses. Quase havia conseguido isso quando, um belo dia, desviei-me da estrada principal para subir uma montanha que ficava um pouco afastada e que era renomada por suas vistas e sua cabana de hospedagem bem administrada. Alcancei o cimo após uma subida estafante e, sentindo-me revigorado e descansado, sentei-me, mergulhando em profunda contemplação do encanto do panorama distante. Estava tão perdido em meus pensamentos que, a princípio, não relacionei comigo estas palavras, quando alcançaram meus ouvidos: “O senhor é médico?” Mas a pergunta fora endereçada a mim, e pela moça de expressão meio amuada, de talvez dezoito anos de idade, que me servira a refeição e à qual a proprietária se dirigira pelo nome de “Katharina”. A julgar por seus trajes e seu porte, não podia ser uma empregada, mas era sem dúvida filha ou parenta da hospedeira.
Voltando a mim, respondi:
-Sim, sou médico, mas como você soube disso?
-O senhor escreveu seu nome no livro de visitantes. E pensei que, se o senhor pudesse dispor de alguns momentos… A verdade, senhor, é que meus nervos estão ruins. Fui ver um médico em L- por causa deles, e ele me receitou alguma coisa, mas ainda não estou boa.
Assim, lá estava eu novamente às voltas com as neuroses - pois nada mais poderia haver de errado com aquela moça de constituição forte e sólida e de aparência tristonha. Fiquei interessado ao constatar que as neuroses podiam florescer assim, a uma altitude superior a 2.000 metros; portanto, fiz-lhe outras perguntas. Relato a conversa que se seguiu entre nós tal como ficou gravada em minha memória, e não alterei o dialeto da paciente.
-Bem, e de que é que você sofre?
-Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas às vezes ela me apanha de tal forma que acho que vou ficar sufocada.
Isso não pareceu, à primeira vista, um sintoma nervoso. Mas logo me ocorreu que provavelmente era apenas uma descrição representando uma crise de angústia: ela estava destacando a falta de ar do complexo de sensações que decorrem da angústia e atribuindo uma importância indevida a esse fator isolado.
-Sente-se aqui. Como são as coisas quando você fica “sem ar”?
-Acontece de repente. Antes de tudo, parece que há alguma coisa pressionando meus olhos. Minha cabeça fica muito pesada, há um zumbido horrível e fico tão tonta que quase chego a cair. Então alguma coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase não consigo respirar.
-E não nota nada na garganta?
-Minha garganta fica apertada, como se eu fosse sufocar.
-Acontece mais alguma coisa na cabeça?
-Sim, umas marteladas, o bastante para fazê-la explodir.
-E não se sente nem um pouco assustada quando isso acontece?
-Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e ando sozinha por toda parte, desde o porão até a montanha inteira. Mas no dia em que isso acontece não ouso ir a parte alguma; fico o tempo todo achando que há alguém atrás de mim que vai me agarrar de repente.
Portanto, era de fato uma crise de angústia, e introduzida pelos sinais de uma “aura” histérica - ou, mais corretamente, era um ataque histérico cujo conteúdo era a angústia. Mas não seria provável que houvesse também outro conteúdo?
-Quando você tem uma dessas crises, pensa em alguma coisa? E sempre a mesma coisa? Ou vê alguma coisa diante de você?
-Sim. Sempre vejo um rosto medonho que me olha de uma maneira terrível, de modo que fico assustada.
Talvez isso pudesse oferecer um meio rápido de chegarmos ao cerne da questão.
-Você reconhece o rosto? Quero dizer, é um rosto que realmente já viu alguma vez?
-Não.
-Sabe de onde vêm as suas crises?
-Não.
-Quando as teve pela primeira vez?
-Há dois anos, quando ainda morava na outra montanha com minha tia. (Ela dirigia uma cabana de hospedagem e nós nos mudamos para cá há dezoito meses.) Mas elas continuam a acontecer.
Deveria eu fazer uma tentativa de análise? Não podia aventurar-me a transplantar a hipnose para essas altitudes, mas talvez tivesse sucesso com uma simples conversa. Teria que arriscar um bom palpite. Eu havia constatado com bastante freqüência que, nas moças, a angústia era conseqüência do horror de que as mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade.
Então disse-lhe:
-Se você não sabe, vou dizer-lhe como eu penso que você passou a ter seus ataques. Nessa ocasião, há dois anos, você deve ter visto ou ouvido algo que muito a constrangeu e que teria preferido muitíssimo não ver.
-Céus, é isso mesmo! - respondeu. - Foi quando surpreendi meu tio com a moça, com Franziska, minha prima.
-Que história é essa sobre uma moça? Não vai me contar?
-Suponho que se pode contar tudo a um médico. Bem, naquela época, o senhor sabe, meu tio, o marido de minha tia que o senhor viu aqui, tinha a estalagem na - kogel. Agora eles estão divorciados, e a culpa é minha, pois foi através de mim que se veio a saber que ele estava andando com Franziska.
-E como você descobriu isso?
-Foi assim. Um dia, há dois anos, uns cavalheiros tinham subido a montanha e pediram alguma coisa para comer. Minha tia não estava em casa, e Franziska, que era quem sempre cozinhava, não foi encontrada em parte alguma. E meu tio também não foi encontrado. Procuramos por toda parte, e finamente Alois, o garotinho que era meu primo, disse: “Ora, Franziska deve estar no quarto de papai!” E ambos rimos, mas não estávamos pensando em nada de mau. Fomos então ao quarto do meu tio, mas o encontramos trancado. Isso me pareceu estranho. Então Alois disse: “Há uma janela no corredor de onde se pode olhar para dentro do quarto.” Dirigimo-nos para o corredor, mas Alois recusou-se a ir até a janela e disse que estava com medo. Então, eu falei: “Seu menino bobo! Eu vou. Não tenho o menor medo.” E não tinha nada de mau na mente. Olhei para dentro. O quarto estava um pouco escuro, mas vi meu tio e Franziska; ele estava deitado em cima dela.
-E então?
-Afastei-me da janela imediatamente, apoiei-me na parede e fiquei sem ar, justamente o que me acontece desde então. Tudo ficou opaco, minhas pálpebras se fecharam à força e havia marteladas e um zumbido em minha cabeça.
-Você contou isso a sua tia no mesmo dia?
-Oh, não, não disse nada.
-Então por que ficou tão assustada quando os viu juntos? Você entendeu? Sabia o que estava acontecendo?
-Oh, não. Não compreendi nada naquela ocasião. Tinha apenas dezesseis anos. Não sei por que me assustei.
-Srta. Katharina, se pudesse lembrar-se agora do que lhe aconteceu naquela ocasião em que teve sua primeira crise, no que pensou sobre o fato … isso a ajudaria.
-Sim, se pudesse. Mas fiquei tão assustada que me esqueci de tudo.
(Traduzido na terminologia de nossa “Comunicação Preliminar” |ver em [1]|, isso significa: “O próprio afeto criou um estado hipnóide cujos produtos foram então isolados da ligação associativa com a consciência do ego”.)
-Diga-me, senhorita, será que a cabeça que você sempre vê quando fica sem ar é a de Franziska, tal como a viu naquele momento?
-Não, não, ela não era tão horrível. Além disso, é uma cabeça de homem.
-Ou talvez a de seu tio?
-Não vi o rosto dele assim com tanta clareza. Estava escuro demais no quarto. E por que estaria fazendo uma cara tão medonha exatamente naquela hora?
-Você tem toda razão.
(O caminho de repente pareceu bloqueado. Talvez algo pudesse surgir no restante de sua história.)
-E o que aconteceu depois?
-Bem, os dois devem ter ouvido algum ruído, porque saíram logo em seguida. Senti-me muito mal o tempo todo. Ficava sempre pensando naquilo. Então, dois dias depois, era domingo, havia muito o que fazer, e trabalhei o dia inteiro. E na manhã de segunda-feira tornei a me sentir tonta e caí doente, fiquei acamada por três dias seguidos.
Nós |Breuer e eu| muitas vezes havíamos comparado a sintomatologia da histeria com uma escrita pictográfica que se torna inteligível após a descoberta de algumas inscrições bilíngües. Nesse alfabeto, estar doente significa repulsa. Então eu disse:
-Se você ficou doente três dias depois, creio que isso significa que quando olhou para dentro do quarto sentiu repulsa.
-Sim, tenho certeza de que senti repulsa - disse ela, pensativa -, mas repulsa de quê?
-Não terá visto alguém nu, talvez? Como estavam eles?
-Estava muito escuro para ver qualquer coisa; além disso, ambos estavam vestidos. Oh, se pelo menos soubesse do que foi que senti nojo!
Eu também não tinha nenhuma idéia. Mas disse-lhe que continuasse e que me contasse qualquer coisa que lhe ocorresse, na confiante expectativa de que ela viesse a pensar exatamente no que eu precisava para explicar o caso.
Bem, ela passou a descrever como afinal havia contado sua descoberta à tia, que a achou mudada e suspeitou que estivesse escondendo algum segredo. Seguiram-se algumas cenas muito desagradáveis entre o tio e a tia, no decorrer das quais as crianças vieram a ouvir muitas coisas que lhes abriram os olhos de várias maneiras e que teria sido melhor que não tivessem ouvido. Finalmente, a tia resolveu mudar-se com os filhos e a sobrinha e ficar com a atual estalagem, deixando o tio sozinho com Franziska, que entrementes ficara grávida. Depois disso, contudo, para minha surpresa, Katharina abandonou o fio da meada e começou a me contar dois grupos de histórias mais antigas, que retrocediam a dois ou três anos antes do momento traumático. O primeiro grupo relacionava-se com ocasiões em que o mesmo tio fizera investidas sexuais contra ela própria, quando estava com apenas quatorze anos. Ela descreveu como, certa feita, fora com ele numa viagem até o vale, no inverno, e ali passara a noite na estalagem. Ele ficou no bar bebendo e jogando cartas, mas ela sentiu sono e foi cedo para a cama, no quarto que iam partilhar no andar de cima. Não estava ainda inteiramente adormecida quando ele subiu; depois, tornou a adormecer e acordou de repente, “sentindo o corpo dele” na cama. Deu um salto e admoestou-o: “O que é que o senhor está pretendendo, tio? Por que não fica na sua própria cama?” Ele tentou apaziguá-la: “Ora, sua bobinha, fique quieta. Você não sabe como é bom.” - “Não gosto de suas coisas ‘boas’; o senhor nem ao menos deixa a gente dormir em paz.” Ela ficou de pé na porta, pronta a se refugiar no corredor do lado de fora, até que finalmente ele desistiu e foi dormir. Então ela voltou para sua própria cama e dormiu até de manhã. Pela maneira como relatou ter-se defendido, parece que ela não reconheceu nitidamente a investida como sendo de ordem sexual. Quando lhe perguntei se sabia o que ele estava tentando fazer com ela, respondeu: “Não naquela ocasião.” Disse então que isso lhe ficara claro muito depois: resistira porque era desagradável ser perturbada durante o sono e “porque não era bom”.
Fui obrigado a relatar isso minuciosamente por causa de sua grande importância para a compreensão de tudo o que se seguiu. Ela passou a relatar-me ainda outras experiências um pouco posteriores: como mais uma vez teve de defender-se dele numa estalagem, quando ele estava inteiramente bêbado, e histórias semelhantes. Em resposta a uma pergunta para saber se, nessas ocasiões, sentira algo semelhante a sua posterior falta de ar, ela respondeu com firmeza que em todas as ocasiões sentira a pressão nos olhos e no peito, mas nada semelhante à força que havia caracterizado a cena da descoberta.
Logo após ter terminado esse conjunto de lembranças, ela começou a me contar um segundo conjunto, que se relacionava com ocasiões em que notara algo entre o tio e Franziska. Uma vez, toda a família passara a noite, com a roupa que trazia no corpo, num palheiro, e ela fora subitamente despertada por um ruído; pensou ter reparado que o tio, que estivera deitado entre ela e Franziska, se afastava, e que Franziska estava acabando de se deitar. De outra feita, passavam a noite numa estalagem na aldeia de N-; ela e o tio estavam num quarto, e Franziska, num outro contíguo. Ela acordou de repente durante a noite e viu uma figura alta e branca na porta, prestes a girar a maçaneta: - “Deus do céu, é o senhor, tio? O que está fazendo na porta?” - “Fique quieta. Estava só procurando uma coisa.” - “Mas a saída é pela outra porta.” - “É, foi um engano meu” … e assim por diante.
Perguntei-lhe se ficara desconfiada nessa ocasião. “Não, não dei nenhuma importância àquilo; apenas notei e não pensei mais no assunto.”
Quando lhe perguntei se tinha ficado assustada também nessas ocasiões, respondeu que achava que sim, mas não estava tão certa disso.
Ao fim desses dois conjuntos de lembranças, ela parou. Parecia alguém que tivesse passado por uma transformação. O rosto amuado e infeliz ficara animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante. Entrementes, a compreensão de seu caso tornara-se clara para mim. A última parte do que me contara, numa forma aparentemente sem sentido, proporcionou uma admirável explicação de seu comportamento na cena da descoberta. Naquela ocasião, ela carregava consigo dois conjuntos de experiências de que se recordava mas que não compreendia, e das quais não havia extraído nenhuma inferência. Quando vislumbrou o casal no ato sexual, estabeleceu de imediato uma ligação entre a nova impressão e aqueles dois conjuntos de lembranças, começou a compreendê-los e, ao mesmo tempo, a rechaçá-los. Seguiu-se então um curto período de elaboração, de “incubação”, após o qual os sintomas de conversão se instalaram, com os vômitos funcionando como um substituto para a repulsa moral e física. Isto solucionou o enigma. Ela não sentira repulsa pela visão das duas pessoas, mas pela lembrança que aquela visão despertara. E, levando tudo em conta, esta só poderia ser a lembrança da investida contra ela na noite em que “sentira o corpo do tio”.
Assim, quando ela terminou sua confissão, eu lhe disse:
-Sei agora o que foi que você pensou ao olhar para dentro do quarto: “Agora ele está fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e nas outras vezes.” Foi disso que você sentiu repulsa, porque lembrou-se da sensação de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.
-É bem possível - respondeu - que tenha sido isso o que me causou repulsa e que tenha sido nisso que pensei.
-Diga-me só mais uma coisa. Você agora é uma moça crescida e sabe toda espécie de coisas…
-Sim, agora eu sou.
-Diga-me apenas uma coisa. Qual foi a parte do corpo dele que você sentiu naquela noite?
Mas ela não me deu mais nenhuma resposta definida. Sorriu de maneira constrangida, como se tivesse sido apanhada, como alguém que é obrigado a admitir que se atingiu uma posição fundamental na qual não resta mais muita coisa a dizer. Pude imaginar qual fora a sensação tátil que ela depois aprendera a interpretar. Sua expressão facial parecia dizer que ela achava que eu tinha razão em minha conjetura. Mas não pude ir mais além e, de qualquer modo, fiquei-lhe grato por me haver tornado muito mais fácil conversar com ela do que com as senhoras pudicas da minha clínica na cidade, que consideram vergonhoso tudo o que é natural.
Assim, o caso ficou esclarecido. Mas esperemos um momento! O que dizer da alucinação periódica da cabeça que surgia durante suas crises e lhe infundia terror? De onde provinha? Perguntei-lhe então sobre isso e, como se seu conhecimento também tivesse sido ampliado por nossa conversa, ela respondeu prontamente:
-Sim, agora eu sei. A cabeça é a do meu tio, agora a reconheço, mas não daquela época. Mais tarde quando todas as brigas tinham irrompido, meu tio deu vazão a uma cólera absurda contra mim. Vivia dizendo que era tudo culpa minha: se eu não tivesse dado com a língua nos dentes, aquilo nunca teria redundado em divórcio. Ele vivia ameaçando fazer alguma coisa contra mim; e quando me avistava a distância, seu rosto se transfigurava de ódio e ele partia para cima de mim com a mão levantada. Eu sempre fugia dele e sempre ficava apavorada com a idéia de que um dia ele me pegasse desprevenida. O rosto que sempre vejo agora é o dele, quando ficava furioso.
Esses dados me fizeram recordar que seu primeiro sintoma histérico - o vômito - havia passado, a crise de angústia permanecera e adquirira um novo conteúdo. Por conseguinte, estávamos lidando com uma histeria que fora ab-reagida num grau considerável. E, de fato, ela havia informado a tia de sua descoberta pouco depois do acontecimento.
-Você contou a sua tia as outras histórias… sobre as investidas que ele fez contra você?
-Contei. Não imediatamente, mas depois, quando já se falava em divórcio. Minha tia disse: “Vamos guardar isso de reserva. Se ele criar caso no tribunal, contaremos isso também.”
Posso compreender muito bem que tenha sido precisamente este último período - quando ocorreram cenas cada vez mais agitadas na casa e quando o estado da própria paciente deixou de interessar a tia, que estava inteiramente absorta na disputa - que tenha sido esse período de acúmulo e retenção que lhe tenha deixado o legado do símbolo mnêmico |do rosto alucinado|.
Espero que essa moça, cuja sensibilidade sexual fora afetada numa idade tão precoce, tenha tirado algum benefício de nossa conversa. Desde então não voltei a vê-la.


DISCUSSÃO

Se alguém afirmasse que o presente relato não é tanto um caso analisado de histeria, e sim um caso solucionado por conjeturas, eu nada teria a dizer contra ele. É certo que a paciente concordou que aquilo que introduzi em sua história provavelmente era verdade, mas ela não estava em condições de reconhecê-lo como algo que houvesse experimentado. Creio que teria sido necessária a hipnose para conseguir isso. Admitindo que minhas conjeturas tenham sido certas, tentarei agora inserir o caso no quadro esquemático de uma histeria “adquirida”, nos moldes sugeridos pelo Caso 3. Parece plausível, portanto, comparar os dois conjuntos de experiências eróticas com momentos “traumáticos”, e a cena da descoberta do casal, com um momento “auxiliar”. | ver em [1] e seg.| A semelhança está no fato de que, nas experiências anteriores, criou-se um elemento da consciência que foi excluído da atividade de pensamento do ego e permaneceu, por assim dizer, armazenado, ao passo que, na última cena, uma nova impressão ocasionou forçosamente uma ligação associativa entre esse grupo separado e o ego. Por outro lado, existem diferenças que não podem ser desprezadas. A causa do isolamento não foi, como no Caso 3, um ato de vontade do ego, mas ignorância por parte deste, que ainda não era capaz de lidar com experiências sexuais. Nesse sentido, o caso de Katharina é típico. Em toda análise de casos de histeria baseados em traumas sexuais, verificamos que as impressões do período pré-sexual que não produziram nenhum efeito na criança atingem um poder traumático, numa data posterior, como lembranças, quando a moça ou a mulher casada adquire uma compreensão da vida sexual. Pode-se dizer que a divisão dos conjuntos psíquicos é um processo normal no desenvolvimento do adolescente, sendo fácil ver que sua recepção posterior pelo ego proporciona oportunidades freqüentes para perturbações psíquicas. Além disso, gostaria, neste ponto, de externar a dúvida de se uma divisão da consciência devida à ignorância é realmente diferente de uma que se deva à rejeição consciente, e se mesmo os adolescentes não possuem conhecimento sexual com muito mais freqüência do que se supõe ou do que eles mesmos acreditam.
Outra distinção no mecanismo psíquico deste caso reside no fato de que a cena da descoberta, que classificamos de “auxiliar” merece igualmente ser denominada de “traumática”. Ela atuou por seu próprio conteúdo, e não simplesmente como alguma coisa que revivesse experiências traumáticas anteriores. Combinou as características de um momento “auxiliar” e de um momento “traumático”. Não parece haver nenhum motivo, contudo, para que essa coincidência nos leve a abandonar uma separação conceitual que em outros casos corresponde também a uma separação no tempo. Outra peculiaridade do caso de Katharina, que, aliás, há muito já nos é familiar, pode ser observada na circunstância de que a conversão, a produção dos fenômenos histéricos, não ocorreu imediatamente após o trauma, e sim depois de um intervalo de incubação. Charcot gostava de classificar esse intervalo de “período de elaboração |élaboration| psíquica”.

A angústia de que Katharina sofria em suas crises era histérica, isto é, era uma reprodução da angústia que surgira em conexão com cada um dos traumas sexuais. Não comentarei aqui o fato que tenho encontrado regularmente num número muito grande de casos - a saber, que a mera suspeita de relações sexuais desperta o afeto de angústia nas pessoas virgens. | ver em [1].|

CASO 5 - SRTA. ELISABETH VON R. (FREUD)

No outono de 1892, um médico meu conhecido pediu-me que examinasse uma jovem que vinha sofrendo há mais de dois anos de dores nas pernas e que tinha dificuldades em andar. Ao fazer esse pedido, acrescentou que julgava tratar-se de um caso de histeria, embora não houvesse nenhum vestígio das indicações habituais dessa neurose. Disse-me conhecer ligeiramente a família, e que, nos últimos anos, ela tivera muitos infortúnios e pouca felicidade. Primeiro, o pai da paciente morrera, em seguida a mãe tivera de submeter-se a uma séria operação da vista e logo depois uma irmã casada sucumbira a uma afecção cardíaca de longa duração após o puerpério. De todas essas dificuldades e todos os cuidados dispensados aos enfermos, a maior parcela recaíra sobre nossa paciente.
Minha primeira entrevista com essa jovem de vinte e quatro anos de idade não me ajudou a realizar grandes progressos na compreensão do caso. Ela parecia inteligente e mentalmente normal, e suportava seus problemas, que interferiam em sua vida social e seus prazeres, com ar alegre - a belle indifférence dos histéricos, como não pude deixar de pensar. Andava com a parte superior do corpo inclinada para a frente, mas sem fazer uso de qualquer apoio. Sua marcha não era de nenhum tipo patológico reconhecido e, além disso, de modo algum era notavelmente mau. Tudo o que se observava era que ela se queixava de grande dor ao andar e de se cansar rapidamente ao andar e ao ficar de pé, e que depois de curto intervalo tinha de descansar, o que diminuía as dores mas não as eliminava inteiramente. A dor era de caráter indefinido; depreendi que era algo da natureza de uma fadiga dolorosa. Uma área bastante grande e mal definida da superfície anterior da coxa direita era indicada como o foco das dores, a partir da qual elas se irradiavam com mais freqüência e onde atingiam sua maior intensidade. Nessa região, a pele e os músculos eram também particularmente sensíveis à pressão e aos beliscões (embora uma picada de agulha provocasse, quando muito, certa dose de indiferença). A hiperalgia da pele e dos músculos não se restringia a essa região, mas podia ser observada mais ou menos em toda a extensão das duas pernas. Os músculos eram talvez ainda mais sensíveis à dor do que a pele;mas não havia dúvida de que as coxas eram as partes mais sensíveis a essas duas espécies de dor. A força motora das pernas não podia ser qualificada de pequena e os reflexos eram de intensidade média. Não havia outros sintomas, de modo que não existia fundamento para se suspeitar da presença de qualquer afecção orgânica grave. O distúrbio se desenvolvera gradativamente durante os dois anos anteriores e variava bastante em intensidade.
Não achei fácil chegar a um diagnóstico, mas resolvi por duas razões concordar com o que fora proposto por meu colega, isto é, que se tratava de um caso de histeria. Em primeiro lugar, fiquei impressionado com a indefinição de todas as descrições do caráter das dores fornecidas pela paciente, que era, não obstante, uma pessoa muito inteligente. Um paciente que sofra de dores orgânicas, a menos que além disso seja neurótico, as descreverá de forma definida e calma. Dirá, por exemplo, que são dores lancinantes, que ocorrem a certos intervalos, que se estendem deste lugar para aquele e que lhe parecem ser provocadas por uma coisa ou outra. Por outro lado, quando um neurastênico descreve suas dores, dá a impressão de estar empenhado numa difícil tarefa intelectual que ultrapassa em muito suas forças. Suas feições se contraem e se deformam como se ele estivesse sob a influência de um afeto angustiante. A voz torna-se mais aguda e ele luta por encontrar um meio de expressão. Rejeita qualquer descrição de suas dores proposta pelo médico, mesmo que ela depois se revele inquestionavelmente adequada. Percebe-se que ele é da opinião de que a linguagem é pobre demais para que ele encontre palavras para descrever suas sensações e de que essas sensações são algo único e até então desconhecido do qual seria inteiramente impossível dar uma descrição completa. Por esse motivo, ele jamais se cansa de acrescentar novos detalhes sem cessar e, quando é obrigado a parar, com certeza fica com a convicção de que não conseguiu se fazer entender pelo médico. Tudo isso porque as dores atraíram toda a atenção dele para elas. A Srta. von R. comportava-se de forma inteiramente oposta, e somos levados a concluir que, já que ela ainda assim atribuía importância suficiente a seus sintomas, sua atenção devia estar em outra coisa, da qual as dores eram apenas um fenômeno acessório - provavelmente, portanto, em pensamentos e sentimentos que estavam vinculados a elas.
Mas existe um segundo fator que é ainda mais decisivamente favorável a essa opinião sobre as dores. Quando estimulamos uma região sensível à dor em alguém com uma doença orgânica ou num neurastênico, o rosto do paciente assume uma expressão de mal-estar ou de dor física. Além disso, ele se esquiva, retrai-se e resiste ao exame. No caso da Srta. von R., contudo, quando se pressionava ou beliscava a pele e os músculos hiperalgésicos de suas pernas, seu rosto assumia uma expressão peculiar, que era antes de prazer do que de dor. Ela gritava mais e eu não podia deixar de pensar que era como se ela estivesse tendo uma voluptuosa sensação de cócega - o rosto enrubescia, ela jogava a cabeça para trás e fechava os olhos, e seu corpo se dobrava para trás. Nenhum desses movimentos era muito exagerado, mas era distintamente observável, e isso só podia ser conciliado com o ponto de vista de que seu distúrbio era histérico e de que o estímulo tocara uma zona histerogênica.
Sua expressão facial não se ajustava à dor evidentemente provocada pela beliscadura dos músculos e da pele; provavelmente se harmonizava mais com o tema dos pensamentos que jaziam ocultos por trás da dor e que eram despertados nela pela estimulação das partes do corpo associadas com esses pensamentos. Observei repetidamente expressões de significado semelhante em casos incontestáveis de histeria, quando se aplicava um estímulo às zonas hiperalgésicas. Os outros gestos da paciente eram, é claro, indícios muito leves de um ataque histérico.
Para começar, não havia explicação para a localização inusitada de sua zona histerogênica. O fato de a hiperalgia afetar principalmente os músculos também dava o que pensar. O distúrbio mais habitualmente responsável pela sensibilidade difusa e local à pressão nos músculos é uma infiltração reumática desses músculos - o reumatismo muscular crônico comum. Já mencionei | ver em. [1]| a tendência desse distúrbio a simular afecções nervosas. Essa possibilidade não entrava em contradição com a consistência dos músculos hiperalgésicos da paciente. Havia numerosas fibras endurecidas na substância muscular e estas pareciam ser especialmente sensíveis. Assim, era provável que uma alteração muscular orgânica da espécie indicada estivesse presente e que a neurose se houvesse ligado a ela, fazendo-a parecer exageradamente importante.
O tratamento prosseguiu na suposição de que o distúrbio fosse dessa espécie mista. Recomendamos a continuação da massagem e faradização sistemática dos músculos sensíveis, independentemente da dor resultante, e reservei para mim o tratamento das pernas com correntes elétricas de alta tensão, a fim de poder manter-me em contato com a paciente. Sua pergunta quanto a se deveria forçar-se a andar foi respondida com um incisivo “sim”.
Dessa maneira, promovemos uma ligeira melhora. Em especial, ela parecia gostar muito dos choques dolorosos produzidos pelo aparelho de alta-tensão, e quanto mais fortes estes eram, mais pareciam afastar suas próprias dores para um segundo plano. Entrementes, meu colega preparava o terreno para o tratamento psíquico, e quando, após quatro semanas de meu pretenso tratamento, propus a ela o outro método e lhe dei algumas explicações sobre seu processamento e modo de ação, obtive rápida compreensão e pouca resistência.
A tarefa em que então me empenhei veio a ser, entretanto, uma das mais árduas que já empreendi, e a dificuldade de fazer um relato dela é comparável, além disso, às dificuldades que tive então de superar. Também por muito tempo fui incapaz de apreender a conexão entre os fatos de sua doença e seus sintomas reais, que, não obstante, deveriam ter sido causados e determinados por aquele conjunto de experiências.
Quando se inicia um tratamento catártico dessa natureza, a primeira pergunta que se faz é se a própria paciente tem consciência da origem e da causa precipitante de sua doença. Em caso afirmativo, não se faz necessária nenhuma técnica especial para permitir-lhe reproduzir a história de sua doença. O interesse que o médico demonstra por ela, a compreensão que lhe permite sentir e as esperanças de recuperação que lhe dá, tudo isso faz com que a paciente se decida a revelar seu segredo. Desde o início me pareceu provável que a Srta. Elisabeth estivesse consciente da causa de sua doença, que o que guardava na consciência fosse apenas um segredo, e não um corpo estranho. Contemplando-a, não se podia deixar de pensar nas palavras do poeta:

Das Maeskchen da weissagt verborgnen Sinn

A princípio, portanto, pude dispensar a hipnose, porém com a ressalva de que poderia fazer uso dela posteriormente, se no curso de sua confissão surgisse algum material cuja elucidação não estivesse ao alcance de sua memória. Ocorreu assim que nesta, que foi a primeira análise integral de uma histeria empreendida por mim, cheguei a um processo que mais tarde transformei num método regular e empreguei deliberadamente. Esse processo consistia em remover o material psíquico patogênico camada por camada e gostávamos de compará-lo à técnica de escavar uma cidade soterrada. Eu começava por fazer com que a paciente me contasse o que sabia e anotava cuidadosamente os pontos em que alguma seqüência de pensamentos permanecia obscura ou em que algum elo da cadeia causal parecia estar faltando. E depois penetrava em camadas mais profundas de suas lembranças nesses pontos, realizando uma investigação sob hipnose ou utilizando alguma técnica semelhante. Todo o trabalho baseava-se, naturalmente, na expectativa de que seria possível identificar um conjunto perfeitamente adequado de determinantes para os fatos em questão. Examinarei agora os métodos utilizados para a investigação profunda.
A história que a Srta. Elisabeth me relatou de sua doença foi cansativa, composta de muitas experiências penosas diferentes. Enquanto fazia o relato, ela não ficava sob hipnose, mas eu a fazia deitar-se e conservar os olhos fechados, embora não me opusesse a que os abrisse ocasionalmente, mudasse de posição, se sentasse e assim por diante. Quando ela ficava mais profundamente emocionada do que de costume com uma parte da história, parecia cair num estado mais ou menos semelhante à hipnose. Ficava então imóvel e mantinha os olhos bem fechados.
Começarei por repetir o que surgiu como a camada mais superficial de suas lembranças. Sendo a mais jovem de três filhas, ela era ternamente apegada aos pais e passara a juventude na propriedade deles, na Hungria. A saúde da mãe era freqüentemente perturbada por uma afecção dos olhos, bem como por estados nervosos. Foi assim que ela se viu atraída para um contato muito íntimo com o pai, um homem alegre e experiente conhecedor da vida que costumava dizer que aquela filha ocupava o lugar de um filho e de um amigo com quem ele podia trocar idéias. Embora a mente da moça encontrasse estímulo intelectual nessa relação com o pai, ele não deixava de observar que a constituição mental dela estava, por causa disso, afastando-se do ideal que as pessoas gostam de ver concretizado numa moça. Em tom brincalhão, ele a chamava de “insolente” e “convencida” e a aconselhava a não ser categórica demais em seus julgamentos, advertindo-a contra o hábito de dizer a verdade às pessoas sem medir as conseqüências e muitas vezes dizendo que ela teria dificuldades em achar um marido. Ela se sentia, de fato, muito descontente por ser mulher. Tinha muitos planos ambiciosos. Queria estudar ou receber educação musical e ficava indignada com a idéia de ter de sacrificar suas inclinações e sua liberdade de opinião pelo casamento. Assim, nutria-se de seu orgulho pelo pai e do prestígio e posição social da família, e guardava zelosamente tudo o que se relacionava com essas vantagens. O altruísmo, contudo, com que colocava em primeiro lugar a mãe e as irmãs mais velhas, quando surgia a ocasião, reconciliava inteiramente seus pais com o lado mais áspero do seu caráter.
Em vista da idade das moças, ficou resolvido que a família se mudaria para a capital, onde Elisabeth, durante um curto espaço de tempo, pôde desfrutar de uma vida mais completa e mais alegre no círculo familiar. Mas sobreveio então o golpe que destruiu a felicidade da família. O pai ocultara, ou talvez tivesse ele próprio subestimado, uma afecção crônica do coração, e um dia foi levado inconsciente para casa, com um edema pulmonar. Foi assistido durante dezoito meses, e Elisabeth agiu no sentido de desempenhar o papel principal junto a seu leito de doente. Dormia no quarto dele, estava pronta a despertar quando ele a chamava à noite, cuidava dele durante o dia e obrigava-se a parecer alegre, enquanto ele se conformava com seu estado irremediável, mostrando uma resignação sem queixas. O início da doença dela deve ter-se relacionado com esse período de desvelos, pois ela se recordava de que, durante os últimos seis meses, ficara acamada por um dia e meio por causa das dores que descrevemos. Ela asseverou, porém, que essas dores passaram rapidamente e não lhe haviam causado nenhuma inquietação nem atraído sua atenção. E, de fato, só dois anos após o falecimento do pai foi que ela se sentiu doente e ficou impossibilitada de andar por causa das dores.
A lacuna causada na vida dessa família de quatro mulheres pela morte do pai, seu isolamento social, a interrupção de tantas relações que prometiam trazer-lhe interesse e diversão, a saúde precária da mãe, que então se tornou mais acentuada - tudo isso lançou uma sombra sobre o estado de espírito da paciente; mas, ao mesmo tempo, despertou-lhe um vivo desejo de que sua família logo pudesse encontrar algo para substituir a felicidade perdida, levando-a a concentrar toda a sua afeição e cuidado na mãe que ainda vivia.
Quando o ano de luto havia passado, sua irmã mais velha casou-se com um homem bem-dotado e dinâmico. Ele ocupava posição de responsabilidade e sua capacidade intelectual parecia prometer-lhe um grande futuro. Mas para com os conhecidos mais íntimos ele exibia uma sensibilidade mórbida e uma insistência egoísta em suas excentricidades. E foi o primeiro do círculo da família a ousar demonstrar falta de consideração pela velha senhora. Isso foi demais para Elisabeth. Ela se sentiu convocada a empreender uma luta contra o cunhado sempre que ele lhe dava oportunidade para isso, enquanto as outras mulheres não levavam a sério as explosões temperamentais dele. Foi um desapontamento penoso para ela ver assim interrompida a reconstrução da antiga felicidade da família, e ela não conseguia perdoar a irmã casada pela complacência feminina com que esta sempre evitava tomar partido. Elisabeth reteve na memória inúmeras cenas ligadas a isso, envolvendo queixas parcialmente não verbalizadas contra seu primeiro cunhado. Mas sua principal recriminação a ele continuava a prender-se ao fato de, em nome de uma possível promoção, ele ter-se mudado com sua pequena família para uma remota cidade da Áustria e assim ter ajudado a aumentar o isolamento da mãe. Nessa ocasião, Elisabeth sentiu de maneira intensa seu desamparo, sua incapacidade de proporcionar à mãe um substituto pela felicidade que perdera e a impossibilidade de levar a cabo a intenção que tivera quando da morte do pai.
O casamento da segunda irmã pareceu prometer um futuro mais brilhante para a família, pois o segundo cunhado, embora menos bem-dotado intelectualmente, era do agrado daquelas mulheres cultas, educado que fora, como acontecera com elas, para ter consideração pelos outros. Seu comportamento reconciliou Elisabeth com a instituição do matrimônio e com a idéia dos sacrifícios que este implicava. Além disso, o segundo casal permaneceu morando perto da mãe e o filho que tiveram tornou-se o predileto de Elisabeth. Infelizmente, outro acontecimento veio lançar uma sombra sobre o ano em que a criança nasceu. O tratamento do problema na vista da mãe exigiu que ela permanecesse num quarto escuro por várias semanas, durante as quais Elisabeth ficou com ela. Uma operação foi considerada inevitável. A agitação diante dessa perspectiva coincidiu com os preparativos para a mudança do primeiro cunhado. Finalmente, a mãe saiu-se bem da operação, que foi realizada por mão de mestre. As três famílias se reuniram numa estação de veraneio e esperou-se que Elisabeth, que ficara exausta com as ansiedades dos últimos meses, se recuperasse inteiramente durante o que seria o primeiro período de libertação dos pesares e temores a ser desfrutado pela família desde a morte do pai.
Foi precisamente durante essas férias, contudo, que as dores e a fraqueza locomotora de Elisabeth começaram. Ela estivera mais ou menos cônscia das dores por um curto período, mas elas sobrevieram com violência, pela primeira vez, depois de ela ter tomado um banho quente na pequena estação de águas. Alguns dias antes ela saíra para dar um longo passeio - na verdade, uma caminhada que durou meio dia -, o qual eles relacionaram com o aparecimento das dores, de modo que foi fácil adotar o ponto de vista de que Elisabeth primeiro ficara “cansada demais” e em seguida “se resfriara”.
A partir dessa época Elisabeth foi a inválida da família. Foi aconselhada pelo médico a dedicar o resto do mesmo verão a um período de tratamento hidropático em Gastein |nos Alpes austríacos|, e viajou para lá com a mãe.  Mas foi então que surgiu uma nova preocupação. A segunda irmã ficara grávida novamente e as notícias de seu estado eram extremamente desfavoráveis, de modo que a custo pôde decidir-se a ir para Gastein. Ela e a mãe mal tinham passado quinze dias lá quando foram chamadas de volta pelas notícias de que a irmã se achava acamada e em estado gravíssimo.
Seguiu-se uma viagem angustiante, durante a qual Elisabeth foi atormentada não só por suas dores como também por expectativas sombrias. Quando as duas chegaram à estação, houve sinais que as levaram a temer o pior; e ao entrarem no quarto da doente tiveram a certeza de que haviam chegado tarde demais para se despedirem de uma pessoa viva.
Elisabeth sofreu não só com a perda dessa irmã, a quem amava ternamente, mas quase na mesma medida com os pensamentos provocados pela morte dela e pelas mudanças que esta acarretou. A irmã sucumbira a uma doença cardíaca que fora agravada pela gravidez. Surgiu então a idéia de que a doença de coração fora herdada do lado paterno da família. Recordou-se que a irmã morta havia sofrido, no início da adolescência, de coréia, acompanhada de um distúrbio cardíaco brando. A família culpou a si própria e aos médicos por terem permitido o casamento, e foi impossível poupar o infeliz do viúvo da acusação de ter posto em perigo a saúde da esposa, ao provocar duas gestações em sucessão imediata. A partir dessa época, os pensamentos de Elisabeth se ocuparam ininterruptamente com a sombria reflexão de que quando, para variar, as raras condições para um casamento feliz tinham sido preenchidas, essa felicidade chegara a um fim terrível. Além disso, ela viu mais uma vez o colapso de tudo o que desejara para a mãe. O cunhado viúvo ficou inconsolável e afastou-se da família da esposa. Ao que parece, a família dele, que se afastara durante seu breve e feliz casamento, achou que aquele momento era favorável para atraí-lo de volta para seu próprio círculo. Não houve meio de preservar a união que existira anteriormente. Não era viável ele morar com a mãe dela, uma vez que Elisabeth era solteira. Como ele também se recusasse a deixar a criança, que era o único legado da esposa morta, sob a custódia das duas mulheres, deu-lhes a oportunidade, pela primeira vez, de acusá-lo de crueldade. Por fim - e este não foi o fato menos aflitivo - chegou aos ouvidos de Elisabeth o boato de que surgira uma querela entre seus dois cunhados. Ela só pôde tentar adivinhar-lhe a causa; mas, ao que parecia, o viúvo formulara exigências de ordem financeira que o outro declarou injustificáveis e que, na verdade, em vista do pesar da mãe na ocasião, ele pôde caracterizar como chantagem da pior espécie.
Essa era, portanto, a infeliz história dessa moça orgulhosa com sua ânsia de amor. Incompatibilizada com seu destino, amargurada pelo fracasso de todos os seus pequenos planos para o restabelecimento das antigas glórias da família, com todos aqueles a quem amava mortos, distantes ou estremecidos, e despreparada para refugiar-se no amor de algum homem desconhecido, ela viveu dezoito meses em reclusão quase completa, não tendo nada a ocupá-la senão os cuidados com a mãe e com suas próprias dores.
Se pusermos de lado os grandes infortúnios e penetrarmos nos sentimentos de uma moça, não poderemos deixar de sentir profunda solidariedade humana pela Srta. Elisabeth. Mas que dizer do interesse, puramente médico, dessa história de sofrimentos, de suas relações com a dolorosa fraqueza locomotora da paciente e das possibilidades de explicação e cura proporcionadas por nosso conhecimento desses traumas psíquicos?
No que concerne ao médico, a confissão da paciente foi, à primeira vista, uma grande decepção. Era um relato de choques emocionais corriqueiros e nada havia que explicasse por que ela adoecera precisamente de histeria ou por que sua histeria assumira a forma específica de uma abasia dolorosa. O relato não esclarecia nem as causas, nem a determinação específica de sua histeria. Talvez pudéssemos presumir que a paciente havia estabelecido uma associação entre suas impressões mentais dolorosas e as dores corporais que por acaso estava experimentando na mesma época, e que agora, em sua vida de lembranças, estivesse usando suas sensações físicas como símbolo das mentais. Mas restava explicar quais teriam sido seus motivos para fazer tal substituição e em que momento ela ocorrera. Essas perguntas, aliás, não eram do tipo que os médicos tinham por hábito formular. Em geral, nós nos contentávamos com a afirmação de que um paciente era constitucionalmente histérico e sujeito a desenvolver sintomas histéricos sob a pressão de excitações intensas de qualquer natureza.
Aquela confissão parecia oferecer ainda menos ajuda para a cura de sua doença do que para sua explicação. Não era fácil verificar que tipo de influência benéfica a Srta. Elisabeth poderia obter da recapitulação da história de seus sofrimentos de anos recentes - com os quais todos os membros da sua família estavam acostumados - para um estranho que a ouvia com solidariedade apenas moderada. Nem havia qualquer sinal de que a confissão produzisse um efeito curativo dessa espécie. Durante esse primeiro período de tratamento, ela nunca deixou de repetir que ainda se sentia doente e que suas dores continuavam intensas como sempre; e, quando dizia isso olhando-me com uma expressão maliciosa de satisfação por eu estar confuso, eu não podia deixar de me lembrar da opinião do velho Sr. von R. sobre sua filha predileta - que ela era muitas vezes “insolente” e “convencida”. Mas eu era obrigado a admitir que ela estava certa.

Se eu tivesse interrompido o tratamento psíquico da paciente nesse estágio, o caso da Srta. Elisabeth von R. não teria lançado nenhuma luz sobre a teoria da histeria. Mas continuei minha análise porque esperava, convicto, que os níveis mais profundos de sua consciência proporcionariam uma compreensão tanto das causas como dos determinantes específicos dos sintomas histéricos. Resolvi, portanto, formular uma pergunta direta à paciente, num estado ampliado de consciência, e indagar-lhe qual teria sido a impressão psíquica à qual se vinculara a primeira emergência de dores nas pernas.
Com essa finalidade em vista, propus-me pôr a paciente em hipnose profunda. Infelizmente, porém, não pude deixar de observar que meu procedimento não a colocara em nenhum outro estado a não ser naquele em que ela fizera seu relato. Já me dei por satisfeito por ela não ter protestado triunfalmente nessa ocasião: “Não estou dormindo, sabe; não posso ser hipnotizada.” Nesse ponto, ocorreu-me a idéia de recorrer ao expediente de aplicar-lhe a pressão na cabeça, cuja origem descrevi na íntegra no caso clínico de Miss Lucy | ver em. [1] e segs.|. Realizei isso instruindo a paciente para que me informasse com fidelidade tudo o que aparecesse em sua imaginação ou de que se lembrasse no momento da pressão. Ela ficou calada por muito tempo e então, por insistência minha, admitiu ter pensado numa noite em que um jovem a acompanhara até em casa depois de uma festa, da conversa que houvera entre eles e dos sentimentos com que voltara para casa a fim de ficar à cabeceira do pai enfermo.
Essa primeira menção ao rapaz abriu uma nova corrente de representações cujos conteúdos extraí então gradativamente. Tratava-se aqui de um segredo, pois ela não havia contado a ninguém, exceto a um amigo comum, suas relações com esse rapaz e as esperanças ligadas a elas. Ele era filho de uma família com a qual há muito eles mantinham relações amistosas e que morava perto da antiga propriedade de nossa paciente. O jovem, que era órfão, fora devotadamente afeiçoado ao pai dela e seguira os conselhos deste no tocante a sua carreira. Estendera sua admiração pelo pai às damas da família. Numerosas lembranças de leituras feitas em comum, de trocas de idéias e de observações feitas por ele que eram repetidas a ela por outras pessoas apoiaram nela o gradual desenvolvimento da convicção de que ele a amava e a compreendia e de que o casamento com ele não implicaria sacrifícios por parte dela, sacrifícios esses que ela tanto temia no casamento de maneira geral. Infelizmente, ele era pouco mais velho do que ela e ainda estava longe de poder sustentar-se. Mas ela estava firmemente determinada a esperar por ele.

Depois que o pai de Elisabeth adoeceu gravemente e ela ficou muito ocupada em cuidar dele, seus encontros com o namorado se tornaram cada vez mais raros. A noite da qual ela se recordara pela primeira vez representou o que fora, na verdade, o clímax dos sentimentos dela, mas mesmo nessa ocasião não tinha havido nenhum éclaircissement entre eles. Naquela ocasião ela se deixara convencer, por insistência da família e do próprio pai, a ir a uma festa em que era provável que o encontrasse. Quisera voltar cedo para casa, mas fora pressionada a ficar e cedera quando ele prometeu acompanhá-la até a residência dela. Elisabeth nunca experimentou sentimentos tão afetuosos para com ele como enquanto ele a acompanhou nessa noite. Mas ao chegar tarde em casa, nesse estado de espírito abençoado, ela constatou que o pai sofrera uma piora e se recriminou amargamente por ter sacrificado tanto tempo à sua própria diversão. Essa foi a última vez que se afastou do pai doente por uma noite inteira. Encontrou-se poucas vezes com o namorado depois disso. Após a morte do pai, o jovem pareceu afastar-se dela em sinal de respeito por seu pesar. O curso de sua vida levou-o então por outros rumos. Ela teve de se acostumar pouco a pouco com a idéia de que o interesse dele por ela fora substituído por outros e de que ela o havia perdido. Mas essa decepção em seu primeiro amor ainda a feria sempre que ela pensava nele.
Foi nessa relação, portanto, e na cena descrita acima, na qual ela atingiu seu auge, que pude procurar as causas de suas primeiras dores histéricas. O contraste entre os sentimentos de alegria que ela se permitira ter naquela ocasião e o agravamento do estado do pai com que deparara ao voltar para casa constituiu um conflito, uma situação de incompatibilidade. O resultado desse conflito foi que a representação erótica foi recalcada para longe da associação e o afeto ligado a essa representação foi utilizado para intensificar ou reviver uma dor física que estivera presente simultaneamente ou pouco antes. Assim, tratava-se de um exemplo do mecanismo de conversão com finalidade de defesa, o qual descrevi com pormenores em outro texto.
Vários comentários, é claro, podem ser feitos a esta altura. Devo ressaltar que não consegui estabelecer, com base em suas recordações, se a conversão ocorreu no momento de sua volta à casa. Assim, procurei por experiências semelhantes durante o tempo em que ela cuidou do pai e trouxe à tona grande número delas. Entre estas, uma importância especial se prendeu, por causa de sua ocorrência freqüente, a cenas em que, a chamado do pai, ela pulava da cama de pés descalços num quarto frio. Eu me senti inclinado a atribuir alguma importância a esses fatores, visto que além de se queixar de dor nas pernas, ela também se queixava de torturantes sensações de frio. Não obstante, mesmo aqui fui incapaz de obter qualquer cena passível de ser identificada como aquela em que ocorreu a conversão. Por essa razão, eu me sentia inclinado a achar que havia uma lacuna na explicação nesse ponto, até me lembrar que, de fato, as dores histéricas nas pernas não haviam surgido durante o período em que ela estava cuidando do pai. Ela só se recordava de um único acesso de dor, que durara apenas um ou dois dias e não lhe chamara a atenção | ver em. [1]|. Dirigi então minhas indagações para esse primeiro aparecimento das dores. Consegui reavivar com segurança a lembrança que a paciente tinha dele. Precisamente naquela ocasião um parente os visitara e ela não pudera recebê-lo por estar de cama. Esse mesmo homem fora infeliz o bastante para visitá-las novamente dois anos depois, para encontrá-la de cama mais uma vez. Mas, apesar de repetidas tentativas, não conseguimos descobrir qualquer causa psíquica para as primeiras dores. Julguei seguro presumir que, de fato, elas haviam surgido sem nenhuma causa psíquica e eram uma afecção reumática branda; e pude estabelecer que esse distúrbio orgânico, que foi o modelo copiado em sua histeria posterior, teria de ser situado, de qualquer modo, antes da cena em que ela voltara da festa acompanhada. A julgar pela natureza das coisas, não obstante, é possível que essas dores, sendo de origem orgânica, tivessem persistido por algum tempo em grau atenuado, sem serem muito percebidas. A obscuridade devida ao fato de que a análise apontava para a ocorrência de uma conversão de excitação psíquica em dor física, embora essa dor certamente não fosse percebida na ocasião em questão ou relembrada em época posterior - esse é um problema que espero poder solucionar mais tarde, com base em outras considerações e em exemplos posteriores. | ver em [1] |
A descoberta da razão da primeira conversão abriu um segundo período profícuo do tratamento. A paciente surpreendeu-me logo depois, ao anunciar que agora sabia por que era que as dores sempre se irradiavam daquela região específica da coxa direita e atingiam ali sua maior intensidade: era nesse lugar que seu pai costumava apoiar a perna todas as manhãs, enquanto ela renovava a atadura em torno dela, pois estava muito inchada. Isso deve ter acontecido uma centena de vezes, mas ela não havia notado a ligação até esse momento. Assim, ela me forneceu a explicação de que eu precisava quanto ao surgimento do que era uma zona histerogênica atípica. Além disso, suas pernas doloridas começaram a “participar da conversa” durante nossas sessões de análise. | ver em [1].| O que tenho em mente é o seguinte fato notável: em geral, a paciente estava sem dor quando começávamos a trabalhar. Se então, por meio de uma pergunta ou pela pressão na sua cabeça, eu despertava uma lembrança, surgia uma sensação de dor, e esta era comumente tão aguda que a paciente estremecia e punha a mão no ponto doloroso. A dor assim despertada persistia enquanto a paciente estivesse sob a influência da lembrança; alcançava seu clímax quando ela estava no ato de me contar a parte essencial e decisiva do que tinha a comunicar, e com a última palavra desse relato, desaparecia. Com o tempo, passei a utilizar essas dores como uma bússola para minha orientação: quando a moça parava de falar mas admitia ainda estar sentindo dor, eu sabia que ela não me havia contado tudo e insistia para que continuasse sua história, até que a dor se esgotasse pela fala. Só então eu despertava uma nova lembrança.
Durante esse período de ‘ab-reação’, o estado da paciente, tanto físico quanto mental, teve uma melhora tão notável que eu costumava dizer, meio de brincadeira, que estava retirando um pouco de seus motivos de dor de cada vez e que, quando os tivesse eliminado inteiramente, ela ficaria boa. Elisabeth logo chegou ao ponto de passar a maior parte do tempo sem dor; deixou-se convencer a caminhar bastante e a abandonar seu isolamento anterior. No curso da análise, ora eu acompanhava as oscilações espontâneas do estado da paciente, ora seguia minha própria estimativa da situação, quando achava não ter esgotado inteiramente alguma parte da história de sua doença.
Durante esse trabalho, fiz algumas observações interessantes, cujas lições vi confirmadas mais tarde, ao tratar de outros pacientes. Quanto às oscilações espontâneas, em primeiro lugar, constatei que, na verdade, não ocorrera nenhuma que não tivesse sido provocada por associação com algum evento contemporâneo. Numa ocasião, ela ouvira falar de uma doença de um de seus conhecidos, o que a fez lembrar-se de um detalhe da doença do pai; de outra feita, o filho da irmã morta fora visitá-las e sua semelhança com a mãe provocara nela sentimentos de pesar; e ainda noutra ocasião uma carta da irmã distante mostrou claramente a influência do cunhado insensível e causou-lhe uma dor que a obrigou a relatar a história de uma cena familiar que ainda não me contara. Visto que ela nunca trazia à tona duas vezes a mesma causa precipitante para uma dor, parecia-me justificado supor que assim esgotaríamos o estoque dessas causas. Desse modo, eu não hesitava em colocá-la em situações projetadas para despertar novas lembranças que ainda não tivessem alcançado a superfície. Por exemplo, mandei-a visitar o túmulo da irmã e encorajei-a a ir a uma festa, em que poderia mais uma vez encontrar o namorado de sua juventude.
A seguir, consegui algum discernimento sobre o modo originário do que poderia ser chamado de histeria “monossintomática”. Verifiquei que sua perna direita doía durante a hipnose quando a discussão versava sobre os cuidados que ela dispensara ao pai enfermo, ou sobre suas relações com o namorado da mocidade, ou sobre outros acontecimentos que se enquadravam no primeiro período de suas experiências patogênicas; por outro lado, a dor surgia na outra perna, a esquerda, tão logo eu provocava uma lembrança relacionada com a irmã morta ou com os dois cunhados - em suma, com uma impressão proveniente da segunda metade da história de sua doença. Tendo assim minha atenção despertada pela regularidade dessa relação, levei minha pesquisa adiante e fiquei com a impressão de que essa diferenciação ia ainda mais além e que cada novo determinante psíquico de sensações dolorosas ficara ligado a algum ponto novo da região dolorosa das pernas. O ponto doloroso original de sua coxa direita se relacionara com os cuidados prestados ao pai; a região da dor estendera-se desse ponto para regiões vizinhas, como resultado de novos traumas. O que tínhamos aqui, portanto, não era, rigorosamente falando, um sintoma físico único, ligado a uma variedade de complexos mnêmicos na mente, mas sim um grande número de sintomas semelhantes, que pareciam, numa visão superficial, estar fundidos num único sintoma. Mas, ao verificar que a atenção da paciente se desviava desse tema, não prossegui com a delimitação das zonas de dor correspondentes aos diferentes determinantes psíquicos.
Não deixei, contudo, de voltar minha atenção para o modo como todo o complexo sintomático da abasia poderia ter-se estruturado nessas zonas dolorosas e, nesse sentido, fiz várias perguntas à paciente, tais como: Qual foi a origem de suas dores ao andar? E ao ficar de pé? E ao deitar-se? A algumas dessas perguntas ela respondeu espontaneamente, a outras sob a pressão de minha mão. Duas coisas resultaram daí. Em primeiro lugar, ela dividiu em grupos para mim todas as cenas a que estavam vinculadas impressões dolorosas, conforme as tivesse experimentado enquanto estava sentada ou de pé, e assim por diante. Por exemplo, estava de pé junto a uma porta quando o pai foi levado para casa logo após o ataque cardíaco | ver em [1]| e, com o susto, ficara paralisada como se tivesse raízes no chão. Continuou acrescentando várias outras lembranças a esse primeiro exemplo de susto quando se achava de pé, até chegar à cena assustadora em que, mais uma vez, estava de pé, como que enfeitiçada, junto ao leito de morte da irmã | ver em [1]|. Poder-se-ia esperar que toda essa cadeia de lembranças mostrasse haver uma conexão verdadeira entre suas dores e o ficar de pé, e a rigor ela poderia ser aceita como prova de uma associação. Mas convém lembrar que seria preciso comprovar a presença de um outro fator em todos esses eventos, um fator que lhe teria dirigido a atenção precisamente para o fato de estar de pé (ou, conforme o caso, andando, sentada, etc.) e, por conseguinte, levado à conversão. A explicação para o fato de sua atenção ter tomado esse rumo só pode ser buscada na circunstância de que andar, ficar de pé e deitar são funções e estados da parte do corpo que, no caso dela, abrangiam as zonas dolorosas: a saber, as pernas. Portanto, foi fácil compreender nesse caso a ligação entre a astasia-abasia e a primeira ocorrência da conversão.
Entre os episódios que, de acordo com esse catálogo, pareceram ter tornado doloroso o andar, um recebeu destaque especial: um passeio que ela fizera na estação de águas em companhia de várias outras pessoas | ver em [1]-[2]| e que teria sido longo demais. Os detalhes desse episódio só emergiram de maneira hesitante e deixaram vários enigmas não solucionados. Ela estivera num estado de ânimo particularmente dócil e se juntou, alegremente, a seu grupo de amigos. O dia estava bonito e não fazia muito calor. A mãe ficou em casa e a irmã mais velha já tinha ido embora. A irmã mais moça sentiu-se mal, mas não quis estragar o prazer dela; o cunhado primeiro disse que ficaria com a esposa, mas depois resolveu juntar-se ao grupo por causa de Elisabeth. Essa cena parecia estar estreitamente relacionada com o primeiro aparecimento das dores, pois ela se lembrou de ter ficado muito cansada e de ter sentido uma dor violenta ao voltar do passeio. Disse, contudo, não estar certa de já ter percebido as dores antes disso. Fiz-lhe ver que era improvável que tivesse empreendido uma caminhada tão longa se já tivesse sentido quaisquer dores fortes. Perguntei-lhe o que na caminhada poderia ter provocado a dor, e ela me forneceu a resposta um tanto obscura de que o contraste entre sua própria solidão e a felicidade conjugal da irmã enferma (felicidade esta que o comportamento do cunhado lhe lembrava constantemente) fora doloroso para ela.
Outra cena, muito próxima da primeira no tempo, teve seu papel na ligação das dores com o sentar. Ocorreu alguns dias depois, quando a irmã e o cunhado já haviam ido embora. Ela estava inquieta e ansiosa. Levantou-se cedo e subiu uma pequena colina, indo até um lugar onde muitas vezes eles tinham estado juntos e que proporcionava uma linda vista. Sentou-se num banco de pedra e se abandonou a seus pensamentos, que mais uma vez diziam respeito a sua solidão e ao destino de sua família, e dessa vez confessou abertamente o desejo intenso de ser tão feliz quanto a irmã. Retornou dessa meditação matinal com dores violentas e, naquela mesma noite, tomou o banho após o qual as dores surgiram em caráter definitivo e permanente | ver em [1]|.
Constatou-se ainda, sem qualquer sombra de dúvida, que suas dores ao andar e ao ficar de pé eram, de início, aliviadas quando ela se deitava. As dores só passaram a se relacionar com o ficar deitada quando, após ter notícia da doença da irmã, ela viajou de volta de Gastein [loc. cit.] e foi atormentada durante a noite tanto pela preocupação com a irmã quanto por dores lancinantes, tendo ficado estendida e insone no vagão de trem. E por muito tempo depois disso, deitar-se foi, na realidade, mais doloroso para ela do que andar ou ficar de pé.
Dessa forma, em primeiro lugar, a região dolorosa se estendera com o acréscimo de áreas adjacentes: cada novo tema que exercia um efeito patogênico catexizara uma nova região das pernas; em segundo lugar, cada uma das cenas que lhe haviam causado uma forte impressão deixara um vestígio, provocando uma catexia duradoura e constantemente acumulada das várias funções das pernas, uma ligação dessas funções com suas sensações dolorosas. Mas um terceiro mecanismo indubitavelmente estivera envolvido na formação de sua astasia-abasia. A paciente encerrou sua descrição de uma série de episódios com a queixa de que eles lhe haviam tornado doloroso o fato de “ficar sozinha”. Em outra série de episódios, que abrangiam suas tentativas frustradas de estabelecer uma nova vida para sua família, ela nunca se cansou de repetir que o doloroso nelas tinha sido seu sentimento de desamparo, o sentimento de que não podia “dar um único passo à frente”. Em vista disso, fui forçado a supor que entre as influências que contribuíram para a formação de sua abasia, tiveram papel essas suas reflexões; não pude deixar de pensar que a paciente não fizera nada mais nada menos do que procurar uma expressão simbólica para seus pensamentos dolorosos, e que a encontrara na intensificação de seus sofrimentos. O fato de que os sintomas somáticos da histeria podem ser produzidos por uma simbolização dessa natureza já foi afirmado em nossa “Comunicação Preliminar” | ver em [1]|. Na discussão do presente caso, apresentarei dois ou três exemplos conclusivos disso. | ver em [1] e segs.| Esse mecanismo psíquico de simbolização não exerceu um papel importante na Srta. Elisabeth von R, não criou sua abasia. Mas tudo contribui para mostrar que a abasia que já estava presente recebeu assim um reforço considerável. Por conseguinte, essa abasia, na fase de desenvolvimento em que a encontrei, devia ser igualada não só a uma paralisia funcional baseada em associações psíquicas, mas também a uma paralisia baseada na simbolização.
Antes de prosseguir meu relato do caso, acrescentarei algumas palavras sobre o comportamento da paciente durante essa segunda fase do tratamento. No curso de toda a análise usei a técnica de provocar o surgimento de imagens e idéias através da pressão sobre a cabeça da paciente, um método, vale dizer, que seria impraticável sem a plena cooperação e a atenção voluntária da paciente. | ver em [1] e segs.| Por vezes, realmente, seu comportamento correspondeu às minhas melhores expectativas, e durante tais períodos foi surpreendente a prontidão com que as diferentes cenas relacionadas com um dado tema surgiram numa ordem rigorosamente cronológica. Era como se ela estivesse lendo um extenso livro ilustrado cujas páginas estivessem sendo viradas diante de seus olhos. Em outras ocasiões, parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época. Quando lhe pressionava a cabeça, ela sustentava que nada lhe havia ocorrido. Eu repetia a pressão e lhe dizia que esperasse, mas ainda assim nada aparecia. Nas primeiras vezes em que surgiu, essa recalcitrância permitiu-me interromper o trabalho: era um dia desfavorável, tentaríamos em outra ocasião. Duas observações, contudo, levaram-me a alterar minha atitude. Notei, em primeiro lugar, que o método só falhava quando eu encontrava Elisabeth alegre e sem dor, e nunca quando ela se sentia mal. Em segundo lugar, reparei que muitas vezes ela fazia essas afirmações de não ter visto nada depois de deixar passar um longo intervalo durante o qual, não obstante, a expressão tensa e preocupada de seu rosto traía o fato de haver um processo mental em curso. Resolvi, portanto, adotar a hipótese de que o método nunca falhava: de que, em todas as ocasiões, sob a pressão da minha mão, alguma idéia ocorria a Elisabeth ou alguma imagem surgia diante de seus olhos, mas ela nem sempre estava preparada para comunicá-las a mim e tentava reprimir mais uma vez o que fora evocado. Consegui pensar em dois motivos para esse encobrimento. Ou ela estava criticando a idéia, o que não tinha nenhum direito de fazer, com o pretexto de que não era suficientemente importante ou de que era uma resposta irrelevante à pergunta que lhe fora formulada, ou estava hesitando em exibi-la por achá-la muito desagradável de contar. Passei a agir, portanto, como se estivesse inteiramente convencido da confiabilidade da minha técnica. Não aceitava mais sua declaração de que nada lhe havia ocorrido e assegurava a ela que algo devia ter acontecido. Talvez, dizia eu, ela não tivesse prestado bastante atenção, e nesse caso eu teria prazer em repetir a pressão. Ou talvez ela achasse que sua idéia não era a idéia certa. Isso, dizia-lhe eu, não era problema dela; sua obrigação era a de ser inteiramente objetiva e dizer o que lhe viesse à cabeça, quer fosse apropriado, quer não. Por fim, eu declarava saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando de mim, mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa. Ao insistir dessa maneira, consegui que, a partir dessa época minha pressão sobre sua cabeça jamais falhasse. Não pude deixar de concluir que minha opinião estava certa e extraí dessa análise uma confiança literalmente irrestrita em minha técnica. Muitas vezes acontecia de só depois de eu pressionar-lhe a cabeça por três vezes é que ela me dava uma informação. Mas ela mesma observava depois: “Poderia ter-lhe dito isso da primeira vez.” - “E por que não disse?” - “Pensei que não fosse o que era preciso”, ou “Pensei que pudesse evitá-lo, mas ficava voltando todas as vezes”. No curso desse difícil trabalho, comecei a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada.

Cheguei então à terceira fase do tratamento. A paciente sentia-se melhor. Fora mentalmente aliviada e era agora capaz de esforços bem-sucedidos. Mas suas dores, manifestamente, não tinham sido eliminadas, repetiam-se de tempos em tempos e com toda a sua antiga gravidade. Esse resultado terapêutico incompleto correspondia a uma análise incompleta. Eu ainda não sabia exatamente em que momento e por qual mecanismo as dores se haviam originado. Durante a reprodução da grande variedade de cenas da segunda fase e enquanto observava a resistência da paciente em falar-me delas, eu havia formado uma suspeita específica. Não me aventurava ainda, contudo, a adotá-la como base para minha ação subseqüente. Mas uma ocorrência fortuita resolveu o assunto. Um dia, enquanto trabalhava com a paciente, ouvi passos de um homem na sala contígua e uma voz agradável que parecia estar formulando alguma pergunta. Minha paciente levantou-se de imediato e pediu para interrompermos os trabalhos por aquele dia: tinha ouvido o cunhado chegar e perguntar por ela. Até esse momento ela estivera livre de dor, mas, após a interrupção, sua expressão facial e seu andar traíram o súbito surgimento de dores agudas. Minha suspeita foi fortalecida por esse fato e decidi-me a precipitar a explicação decisiva.
Assim, perguntei-lhe pelas causas e circunstâncias da primeira vez em que as dores haviam surgido. À guisa de resposta, seus pensamentos se voltaram para a visita de verão à estação de águas antes de sua viagem a Gastein, e inúmeras cenas que não tinham sido tratadas de maneira muito completa surgiram de novo. Ela se lembrou de como se sentia na época, de como estava esgotada após a preocupação com a visão da mãe e os cuidados prestados a ela na época da operação, e de como por fim perdera a esperança de que uma moça solitária como ela pudesse ter alguma felicidade na vida ou realizar alguma coisa. Até então ela se julgara forte o bastante para poder passar sem a ajuda de um homem, mas agora se via dominada pelo sentimento de sua fraqueza como mulher e por um anseio de amor no qual, citando suas próprias palavras, sua natureza congelada começava a derreter-se. Nesse estado de espírito, ela foi profundamente afetada pelo casamento feliz da segunda irmã - por ver com que tocante carinho o cunhado cuidava dela, como os dois se entendiam com um simples olhar e como pareciam seguros um do outro. Sem duvida, era lastimável que a segunda gravidez tivesse vindo tão perto da primeira, e a irmã sabia que esse era o motivo de sua doença, mas como a suportava de bom grado por ter sido ele o causador! Por ocasião do passeio que estava tão intimamente ligado às dores de Elisabeth, o cunhado a princípio não se mostrara disposto a participar e desejara permanecer ao lado da esposa enferma. Ela, porém, o persuadira com um olhar a acompanhá-los, por achar que isso daria prazer a Elisabeth. Elisabeth permaneceu na companhia dele durante todo o passeio. Falaram sobre todos os assuntos, até os mais íntimos. Ela se descobriu em completo acordo com tudo o que ele dizia, e o desejo de ter um marido como ele acentuou-se muito. Então, alguns dias depois, veio a cena da manhã após a partida da irmã e do cunhado, quando ela foi ao local que tinha uma vista bonita e que fora o preferido nos passeios deles. Ali, sentou-se e sonhou mais uma vez em desfrutar de uma felicidade como a da irmã e em encontrar um marido que soubesse cultivar-lhe o coração, como seu cunhado cativara o dela. Sentiu dor ao levantar-se, mas esta passou mais uma vez. Foi somente à tarde, depois de ter tomado o banho quente, que as dores irromperam, e ela nunca mais se livrou delas. Tentei descobrir que pensamentos lhe teriam ocupado a mente enquanto ela tomava banho, mas soube apenas que o banheiro a fizera recordar-se dos membros da família que haviam partido, pois fora naquela casa que eles tinham ficado.
Como era inevitável, tudo isso já ficara claro para mim há muito tempo. Mas a paciente, mergulhada em suas lembranças acridoces, não parecia notar para onde se estava encaminhando e continuou a reproduzir suas recordações. Passou a falar de sua visita a Gastein, da ansiedade com que aguardava cada carta e finalmente das más notícias sobre a irmã, da longa espera até o anoitecer, que foi o primeiro momento em que puderam partir de Gastein, e então da viagem, feita numa torturante incerteza, e da noite insone - tudo isso acompanhado por um violento aumento das dores. Perguntei-lhe se durante a viagem havia pensado na possibilidade deplorável que depois se concretizou. Respondeu-me que evitara cuidadosamente pensar nela, mas acreditava que desde o início a mãe havia esperado o pior. Suas lembranças passaram então à chegada a Viena, à impressão que lhes causaram os parentes que as esperavam, à curta viagem de Viena até a estação de veraneio próxima onde morava a irmã, à chegada à noite, à caminhada apressada pelo jardim até a porta da casa ajardinada, ao silêncio que reinava em seu interior e à escuridão opressiva. Lembrou que o cunhado não estava lá para recebê-las e que ficaram diante da cama, olhando para a irmã morta. Naquele momento de terrível certeza de que a irmã amada estava morta sem ter-lhes dito adeus, e sem que ela lhe tivesse aliviado os últimos dias com seus cuidados, naquele exato momento outro pensamento atravessou a mente de Elisabeth, e agora se impunha de maneira irresistível a ela mais uma vez, como um relâmpago nas trevas: “Agora ele está livre novamente e posso ser sua esposa.”
Tudo ficou claro então. Os esforços do analista foram ricamente recompensados. Os conceitos de “rechaço” de uma representação incompatível, da gênese dos sintomas histéricos através da conversão de excitações psíquicas em algo físico e da formação de um grupo psíquico separado, através do ato de vontade que conduziu ao rechaço - todas essas coisas, naquele momento, apareceram diante de meus olhos de forma concreta. Assim, e de nenhuma outra maneira, as coisas haviam ocorrido nesse caso. Essa moça sentia pelo cunhado uma ternura cuja aceitação na consciência deparara com a resistência de todo o seu ser moral. Ela conseguiu poupar-se da dolorosa convicção de que amava o marido da irmã induzindo dores físicas em si mesma. E foi nos momentos em que essa convicção procurou impor-se a ela (no passeio com o cunhado, durante o devaneio matinal, no banho e junto ao leito da irmã) que suas dores surgiram, graças à conversão bem-sucedida. Na época em que comecei o tratamento dela, o grupo de representações relativas a seu amor já havia sido separado de seu conhecimento. De outra forma, penso eu, ela jamais teria concordado em iniciar o tratamento. A resistência que ela havia repetidamente oferecido à reprodução das cenas que atuaram de forma dramática correspondera, na verdade, à energia com que a representação incompatível fora expulsa de suas associações.
O período que se seguiu, porém, foi árduo para o médico. O resgate dessa representação recalcada teve um efeito devastador sobre a pobre moça. Ela chorou alto quando lhe expus secamente a situação com as palavras: “Quer dizer que, durante muito tempo, você esteve apaixonada por seu cunhado. ”Nesse momento, ela queixou-se das dores mais terríveis e fez um último e desesperado esforço para rejeitar a explicação: não era verdade, eu a havia induzido àquilo, não podia ser verdade, ela seria incapaz de tanta maldade, jamais poderia perdoar-se por isso. Foi fácil provar-lhe que o que ela própria me dissera não admitia outra interpretação. Mas passou-se muito tempo antes que meus dois argumentos consoladores - o de que não somos responsáveis por nossos sentimentos e o de que seu comportamento, o fato de ter adoecido naquelas circunstâncias, era prova suficiente de seu caráter moral - passou-se muito tempo antes que essas minhas consolações a impressionassem um mínimo que fosse.
Para minorar os sofrimentos da paciente, tive então que percorrer mais de um caminho. Em primeiro lugar, eu queria dar-lhe uma oportunidade de se livrar da excitação que se vinha acumulando há tanto tempo através da “ab-reação”. Vasculhamos as primeiras impressões que suas relações com o cunhado lhe causaram, o início dos sentimentos por ele que ela mantivera inconscientes. Aí deparamos com todos os pequenos sinais e impressões premonitórios a que uma paixão plenamente desenvolvida confere tanta importância em retrospectiva. Na primeira visita que fizera à família, ele a confundira com a moça com quem iria casar-se e a cumprimentara antes da irmã mais velha, de aparência um tanto insignificante. Certa noite, os dois conversavam com tanta animação e pareciam dar-se tão bem que a noiva os interrompeu num tom parcialmente sério, com a seguinte observação: “A verdade é que vocês dois se ajustariam de maneira esplêndida.” De outra vez, numa festa em que ninguém sabia do noivado dele, falava-se do rapaz e uma senhora criticou-lhe um defeito físico que indicava que ele tivera uma doença óssea na infância. A própria noiva ouviu isso tranqüilamente, mas Elisabeth inflamou-se e defendeu a simetria do físico de seu futuro cunhado com um zelo que ela própria não pôde compreender. À medida que fomos trabalhando essas lembranças, tornou-se claro para Elisabeth que seu sentimento afetuoso pelo cunhado estivera latente por muito tempo, talvez mesmo desde que o conhecera e ficara escondido todo aquele tempo atrás da máscara de uma mera afeição fraterna, que seu senso familiar muito desenvolvido permitia-lhe aceitar como natural.
Esse processo de ab-reação certamente lhe fez muito bem. Mas pude aliviá-la ainda mais ao me interessar como amigo por sua situação atual. Com essa finalidade em mente, providenciei uma entrevista com a Sra. von R. Verifiquei ser ela uma senhora compreensiva e sensível, embora seu ânimo vital tivesse sido abatido pelos recentes infortúnios. Soube por ela que, num exame mais detido, a acusação de chantagem insensível que o cunhado mais velho proferira contra o viúvo, e que fora tão penosa para Elisabeth, tivera de ser retirada. Não restou nenhuma mancha no caráter do rapaz. Tudo fora um mal-entendido devido aos valores diferentes que, como se pode ver facilmente, são atribuídos ao dinheiro por um homem de negócios, para quem o dinheiro constitui um instrumento de sua profissão, e por um servidor público. Nada além disso restara do penoso episódio. Pedi à mãe dela que, a partir daquele momento contasse a Elisabeth tudo o que ela precisava saber, e que no futuro lhe desse a oportunidade de descarregar sua mente, coisa a que eu já a teria habituado.
Eu também estava, naturalmente, ansioso para saber que possibilidade haveria de que o desejo da moça, do qual ela agora tinha consciência, se concretizasse. Aqui, as perspectivas eram menos favoráveis. A mãe contou-me que há muito adivinhara os sentimentos de Elisabeth pelo rapaz, embora não soubesse que esses sentimentos já existiam quando a irmã era viva. Ninguém que visse os dois juntos - embora, na verdade, isso agora ocorresse raramente - poderia duvidar da ânsia da moça em agradá-lo. Mas, disse, nem ela (a mãe) nem os conselheiros da família eram muito favoráveis a um casamento. A saúde do rapaz não era nada boa e recebera um novo golpe com a morte da esposa amada. Também não era nada certo que o estado mental dele já se houvesse recuperado o bastante para que ele fizesse um novo casamento. Talvez fosse por isso que ele se comportava com tanta reserva; talvez, também, estivesse incerto da acolhida que poderia ter e desejasse evitar os comentários que provavelmente seriam feitos. Em vista dessas restrições de ambos os lados, era improvável que a solução pela qual ansiava Elisabeth viesse a ocorrer.
Disse à moça o que ouvira da mãe dela e tive a satisfação de ajudá-la ao dar-lhe a explicação sobre a questão do dinheiro. Por outro lado, encorajei-a a enfrentar com calma a incerteza sobre o futuro, que era impossível dissipar. Mas a essa altura, a aproximação do verão tornou urgente que encerrássemos a análise. O estado da paciente estava de novo melhor e não se falara mais em suas dores desde que começáramos a investigar-lhes as causas. Ambos tínhamos a sensação de havermos chegado ao fim, embora eu dissesse a mim mesmo que a ab-reação do amor que ela havia refreado por tanto tempo não se realizara completamente. Considerei-a curada e disse-lhe que a solução de suas dificuldades se processaria por sua própria conta, agora que o caminho fora aberto. Ela não questionou isso. Partiu de Viena com a mãe para encontrar-se com a irmã mais velha e a família desta, a fim de passarem juntas o verão.
Tenho algumas palavras a acrescentar sobre o curso posterior do caso da Srta. Elisabeth von R. Algumas semanas depois de nos termos separado, recebi uma carta desesperada de sua mãe. Na primeira tentativa que fizera, disse-me ela, de discutir os assuntos sentimentais da filha com ela, a moça se rebelara violentamente e desde então passara a sofrer de dores intensas mais uma vez. Ficara indignada comigo por eu ter traído seu segredo. Mostrava-se inteiramente inacessível e o tratamento fora um fracasso completo. O que se deveria fazer agora? - perguntou. Elisabeth se recusava a ter mais qualquer outra coisa a ver comigo. Não respondi a isso. Era evidente que Elisabeth, depois de sair dos meus cuidados, faria mais uma tentativa de rejeitar a intervenção da mãe e refugiar-se mais uma vez no isolamento. Mas eu tinha uma espécie de convicção de que tudo acabaria bem e de que o trabalho que eu tivera não fora em vão. Dois meses depois elas voltaram a Viena, e o colega que me apresentara o caso deu-me notícias de que Elisabeth se sentia perfeitamente bem e se comportava como se não houvesse nada de errado com ela, embora ainda sofresse ocasionalmente de leves dores. Várias vezes desde então ela me enviou mensagens semelhantes e, em cada uma delas, prometeu vir ver-me. Mas é característico da relação pessoal que se estabelece nos tratamentos dessa natureza que ela nunca o tenha feito. Como me assegura meu colega, ela deve ser considerada curada. A ligação do cunhado dela com a família permaneceu inalterada.
Na primavera de 1894, eu soube que ela iria a um baile particular para o qual eu poderia obter um convite, e não deixei escapar a oportunidade de ver minha ex-paciente passar por mim rodopiando numa dança animada. Depois dessa ocasião, por sua própria vontade, casou-se com alguém que não conheço.


DISCUSSÃO

Nem sempre fui psicoterapeuta. Como outros neuropatologistas, fui preparado para empregar diagnósticos locais e eletroprognósticos, e ainda me causa estranheza que os relatos de casos que escrevo pareçam contos e que, como se poderia dizer, falte-lhes a marca de seriedade da ciência. Tenho de consolar-me com a reflexão de que a natureza do assunto é evidentemente a responsável por isso, e não qualquer preferência minha. A verdade é que o diagnóstico local e as reações elétricas não levam a parte alguma no estudo da histeria, ao passo que uma descrição pormenorizada dos processos mentais, como as que estamos acostumados a encontrar nas obras dos escritores imaginativos, me permite, com o emprego de algumas fórmulas psicológicas, obter pelo menos alguma espécie de compreensão sobre o curso dessa afecção. Os casos clínicos dessa natureza devem ser julgados como psiquiátricos; entretanto, possuem uma vantagem sobre estes últimos, a saber: uma ligação íntima entre a história dos sofrimentos do paciente e os sintomas de sua doença - uma ligação pela qual ainda procuramos em vão nas biografias das outras psicoses.
Ao relatar o caso da Srta. Elisabeth von R., esforcei-me por entrelaçar as explicações que pude fornecer sobre o caso com minha descrição do curso da recuperação da paciente. Talvez valha a pena reunir mais uma vez os pontos importantes. Descrevi o caráter da paciente - as características que são encontradas com tanta freqüência nas pessoas histéricas e que não há nenhuma desculpa para se considerar como conseqüência da degenerescência: seus talentos variados, sua ambição, sua sensibilidade moral, sua excessiva exigência de amor, a princípio atendida pela família, e a independência de sua natureza, que ia além do ideal feminino e encontrava expressão numa dose considerável de obstinação, combatividade e reserva. Nenhuma mancha hereditária apreciável, segundo me disse meu colega, pôde ser encontrada em qualquer dos dois lados da família. É verdade que a mãe sofrera por muitos anos de uma depressão neurótica que não fora investigada, mas os irmãos e as irmãs da mãe, assim como o pai e a família deste, podiam ser considerados pessoas equilibradas, sem problemas nervosos. Não ocorrera nenhum caso grave de neuropsicose entre os parentes próximos.
Tal era a natureza da paciente, que agora se via dominada por emoções dolorosas, a começar pelo efeito depressivo de cuidar de seu querido pai durante uma doença prolongada.

Há bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenhe um papel tão significativo na pré-história dos casos de histeria. Muitos dos fatores em ação são óbvios: a perturbação da saúde física que decorre do sono interrompido, o desleixo para consigo mesmo e o efeito da preocupação constante sobre as próprias funções vegetativas. Em minha opinião, porém, deve-se procurar o determinante mais importante em outra parte. Qualquer pessoa cuja mente seja ocupada pelas mil e uma tarefas envolvidas na prestação de cuidados a pessoas enfermas, tarefas essas que se seguem umas às outras numa sucessão interminável por um período de semanas e meses, adotará, por um lado, o hábito de suprimir todos os sinais de sua própria emoção, e por outro, logo desviará a atenção de suas próprias impressões, visto não ter nem tempo nem forças para apreciá-las devidamente. Assim, acumula uma massa de impressões passíveis de carregar afeto, que mal chegam a ser suficientemente percebidas e que, de qualquer modo, não foram enfraquecidas pela ab-reação. Está criando material para uma “histeria de retenção”. Quando o doente se recupera, é claro, todas essas impressões perdem seu significado. Mas quando ele morre e se instala então o período de luto, no qual as únicas coisas que parecem ter valor são as que se relacionam com a pessoa que morreu, aquelas impressões que ainda não foram trabalhadas entram igualmente em cena, e após um breve intervalo de exaustão, irrompe a histeria, cujas sementes foram lançadas durante o tempo de prestação de cuidados ao doente.
Também deparamos ocasionalmente com esse mesmo fato de os traumas acumulados durante a prestação de cuidados a um enfermo serem enfrentados mais tarde, sem que haja nenhuma impressão geral de doença, mas retendo-se ainda assim o mecanismo da histeria. É o caso, por exemplo, de uma senhora que conheço, extremamente bem-dotada, que sofre de leve nervosismo e cujo caráter, como um todo, apresenta traços de histeria, embora ela nunca tenha tido que procurar assistência médica ou ficado impossibilitada de cumprir seus deveres. Ela já cuidou até o fim de três ou quatro pessoas a quem amava. A cada vez, chegava a um estado de completo esgotamento, mas não adoecia depois desses trágicos esforços. Pouco depois da morte de cada paciente seu, contudo, iniciava-se nela um trabalho de reprodução que mais uma vez lhe colocava diante dos olhos as cenas da doença e da morte. Todos os dias ela repassava cada uma daquelas impressões, chorava e se consolava - a seu bel-prazer, poder-se-ia dizer. Esse processo de lidar com suas impressões encaixava-se em suas tarefas cotidianas sem que as duas atividades interferissem uma na outra. A situação inteira lhe passava pela mente em seqüência cronológica. Não sei dizer se o trabalho de rememoração correspondia dia a dia ao passado. Desconfio que isso dependia do número de horas de lazer proporcionadas por seus afazeres domésticos correntes.
Além dessas explosões de choro com que ela compensava o atraso e que ocorriam logo após o término fatal da doença, essa senhora celebrava festivais anuais de lembranças no período de suas várias catástrofes, e nessas ocasiões sua nítida reprodução visual e suas expressões de sentimento se atinham rigorosamente às datas exatas. Por exemplo, uma vez encontrei-a chorando a perguntei-lhe amavelmente o que acontecera naquele dia. Ela repeliu minha pergunta, um pouco irritada: “Não foi nada”, disse, “foi só que o especialista esteve aqui hoje novamente e nos deu a entender que não havia mais nenhuma esperança. Não tive tempo de chorar por causa disso na hora”. Referia-se à última doença do marido, que falecera três anos antes. Muito me interessaria saber se as cenas que ela relembrava nesses festivais anuais de recordações eram sempre as mesmas, ou se a cada vez se apresentavam detalhes diferentes para fins de ab-reação, tal como suspeito em vista de minha teoria. Mas não posso saber com certeza. Essa senhora, que não tinha menos força de caráter do que inteligência, sentia-se envergonhada do efeito violento que essas reminiscências tinham sobre ela.
Devo frisar mais uma vez que essa mulher não está doente; sua ab-reação retardada não era um processo histérico, por mais que se assemelhasse a tal processo. Podemos perguntar por que uma situação de velar por doentes é acompanhada de histeria e outra, não. Não pode ser uma questão de predisposição individual, pois esta se achava presente em alto grau na senhora de que falei.
Mas devo agora voltar à Srta. Elisabeth von R. Enquanto cuidava do pai, como vimos, ela desenvolveu pela primeira vez um sintoma histérico - uma dor numa região específica da coxa direita. Por meio da análise, foi possível encontrar uma elucidação adequada para o mecanismo do sintoma. Ele aconteceu no momento em que o círculo de idéias que abrangia seus deveres para com o pai enfermo entrou em conflito com o conteúdo do desejo erótico que ela estava sentindo na época. Sob a pressão de intensas autocensuras, ela se decidiu em favor do primeiro e, ao fazê-lo, provocou a dor histérica.
De acordo com a visão sugerida pela teoria conversiva da histeria o que aconteceu pode ser descrito da seguinte maneira. Ela recalcou uma idéia erótica fora da consciência e transformou a carga de seu afeto em sensações físicas de dor. Não ficou claro se esse primeiro conflito se apresentou a ela numa única ocasião ou em várias; a segunda alternativa é a mais provável. Um conflito exatamente semelhante - embora de maior significação ética e ainda mais claramente estabelecido pela análise - desenvolveu-se de novo alguns anos depois e levou a uma intensificação e uma extensão das mesmas dores para além dos limites originais. Mais uma vez, foi um círculo de representações de natureza erótica que entrou em conflito com todas as suas representações morais, pois suas inclinações centralizaram-se no cunhado e, tanto durante a vida da irmã como depois de sua morte, a representação de ser atraída precisamente por esse homem lhe era totalmente inaceitável. A análise proporcionou informações pormenorizadas sobre esse conflito, que foi o ponto central da história da doença. Os germes do sentimento da paciente pelo cunhado podiam ter estado presentes por muito tempo; seu desenvolvimento foi favorecido pela exaustão física devida à ampliação dos cuidados com os doentes e pela exaustão moral devida às decepções que se estendiam por muitos anos. A frieza de sua natureza começou a ceder e ela admitiu para si mesma sua necessidade do amor de um homem. Durante as várias semanas que passou na companhia dele na estação de águas, seus sentimentos eróticos, bem como suas dores, alcançaram seu clímax.
A análise, além disso, deu provas de que durante o mesmo período a paciente se encontrava num estado psíquico especial. A ligação desse estado com seus sentimentos eróticos e suas dores parece possibilitar a compreensão do que aconteceu segundo a teoria da conversão. Parece-me seguro afirmar que, na época, a paciente só se conscientizou claramente de seus sentimentos pelo cunhado, por mais poderosos que fossem, numas poucas ocasiões, e mesmo assim apenas momentaneamente. Se tivesse sido de outra forma, ela também se teria conscientizado, inevitavelmente, da contradição entre esses sentimentos e suas representações morais, e teria experimentado tormentos mentais como os que a observei ter depois de nossa análise. Ela não se lembrava de nenhum sofrimento desse tipo; havia-os evitado. Sucedeu que seus próprios sentimentos não ficaram claros para ela. Naquela época, assim como durante a análise, seu amor pelo cunhado estava presente em sua consciência, como um corpo estranho, sem entrar em relação com o restante de sua vida representativa. Com relação a esses sentimentos, ela estava na situação peculiar de saber e, ao mesmo tempo, de não saber - situação, vale dizer, em que um grupo psíquico é isolado. Mas isto, e nada mais, é o que queremos dizer quando afirmamos que esses sentimentos não estavam claros para ela. Não queremos dizer que a consciência deles fosse de qualidade inferior ou de menor grau, mas sim que eles foram isolados de qualquer livre conexão associativa de pensamento com o resto do conteúdo representativo de sua mente.
Mas como poderia ocorrer que um grupo representativo com tanta força emocional fosse mantido tão isolado? Afinal de contas, em geral o papel desempenhado nas associações por uma idéia aumenta, proporcionalmente à quantidade de afetos que há nela.
Poderemos responder a essa pergunta se levarmos em conta dois fatos que podemos usar como estabelecidos com certeza. (1) Simultaneamente à formação desse grupo psíquico isolado, a paciente desenvolveu suas dores histéricas. (2) A paciente ofereceu forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência; e quando, apesar disso, a ligação se realizou, ela sentiu uma grande dor psíquica. Nossa visão da histeria relaciona esses dois fatos com a divisão de sua consciência, afirmando que o segundo deles indica o motivo para a divisão da consciência, ao passo que o primeiro indica seu mecanismo. O motivo foi o de defesa - a recusa, por parte de todo o ego da paciente, a chegar a um acordo com esse grupo representativo. O mecanismo foi o de conversão, isto é, em lugar das dores mentais que ela evitou, surgiram as dores psíquicas. Desse modo, efetuou-se uma transformação que teve a vantagem de livrar a paciente de uma condição mental intolerável, embora, é verdade, à custa de uma anormalidade psíquica - a divisão da consciência que se efetuou - e de uma doença física - suas dores, sobre as quais se desenvolveu uma astasia-abasia.
Devo confessar que não posso oferecer nenhuma indicação de como se processa uma conversão dessa natureza. Evidentemente, ela não se efetua da mesma maneira que uma ação intencional e voluntária. É um processo que ocorre sob a pressão da motivação de defesa em alguém cuja organização - ou modificação temporária dela - tem uma tendência nesse sentido.
Essa teoria exige um exame mais detido. Podemos perguntar: o que é que se transforma aqui em dor física? Uma resposta cautelosa seria: algo que talvez se tivesse transformado e que deveria ter-se transformado em dor mental. Se nos aventurarmos um pouco mais e tentarmos representar o mecanismo representativo numa espécie de quadro algébrico, poderemos atribuir uma certa carga de afeto ao complexo representativo dos sentimentos eróticos que permaneceram inconscientes e dizer que essa quantidade (a carga afetiva) é o que foi convertido. Resultaria diretamente dessa descrição que o “amor inconsciente” teria perdido tanto de sua intensidade através de uma conversão desse tipo que se teria reduzido a apenas uma representação fraca. Essa redução da força seria, então, a única coisa que tornou possível a existência desses sentimentos inconscientes como um grupo psíquico isolado. O presente caso, contudo, não se presta bem a dar um quadro nítido de um assunto tão delicado, pois nele provavelmente só houve conversão parcial; em outros, pode-se demonstrar com probabilidade que a conversão completa também ocorre, e que nela a representação incompatível é de fato “recalcada”, como somente uma representação de intensidade muito fraca pode ser. Os pacientes em questão declaram, depois que a ligação associativa com a representação incompatível se estabelece, que seus pensamentos não se voltavam para ela desde o aparecimento dos sintomas histéricos.
Afirmei anteriormente | ver em [1]| que em algumas ocasiões, embora apenas por um momento, a paciente reconheceu conscientemente seu amor pelo cunhado. Como exemplo disso, podemos recordar o momento em que ela se encontrava de pé junto à cama da irmã e um pensamento lhe cruzou a mente: “Agora ele está livre e você pode ser sua esposa” | ver em [1]|. Cabe-me agora considerar o significado desses momentos em sua relação com nossa visão de toda a neurose. Parece-me que o próprio conceito de “histeria de defesa” implica que pelo menos um desses momentos deve ter ocorrido. A consciência simplesmente não sabe por antecipação quando uma representação incompatível vai aflorar. A representação incompatível, que juntamente com as que lhe estão associadas é depois excluída e forma um grupo psíquico separado, deve originalmente ter estado em comunicação com a corrente principal de pensamento. De outra forma, o conflito que levou a sua exclusão não poderia ter ocorrido. São esses momentos, portanto, que devem ser classificados de “traumáticos”; é nesses momentos que ocorre a conversão, cujos resultados são a divisão da consciência e o sintoma histérico. No caso da Srta. Elisabeth von R., tudo indica que ocorreram vários desses momentos - as cenas do passeio, o devaneio matinal, o banho e a presença à cabeceira da irmã. É até possível que novos momentos da mesma espécie tenham acontecido durante o tratamento. O que possibilita a existência de vários desses momentos traumáticos é que as experiências semelhantes à que originalmente introduziu a representação incompatível acrescentam uma nova excitação ao grupo psíquico separado e, desse modo, suspendem temporariamente o êxito da conversão. O ego é obrigado a prestar atenção a essa irrupção súbita da representação e a restaurar o antigo estado de coisas através de uma nova conversão. A Srta. Elisabeth, que passava muito tempo na companhia do cunhado, deve ter ficado particularmente sujeita à ocorrência de novos traumas. Do ponto de vista da minha exposição atual, eu teria preferido um caso em que a história traumática se situasse inteiramente no passado.
Cabe-me agora tocar num ponto que conforme descrevi | ver em [1]-[2]| levanta um obstáculo à compreensão desse caso. Baseando-se na análise, presumi que uma primeira conversão havia ocorrido quando a paciente estava cuidando do pai, na época em que seus deveres de enfermeira entraram em conflito com seus desejos eróticos, e que o que aconteceu então foi o protótipo dos eventos posteriores, na estação de águas nos Alpes, que levaram à irrupção da doença. Mas parecia, pelo relato da paciente, que enquanto cuidava do pai e durante o tempo que se seguiu - o que descrevi como o “primeiro período” - ela não teve nenhuma dor e nenhuma fraqueza locomotora. É verdade que certa vez, durante a doença do pai, ela esteve acamada por alguns dias com dores nas pernas, mas permaneceu uma dúvida quanto a determinar se esse ataque deveria ser atribuído à histeria. Não se pôde achar na análise nenhuma ligação causal entre essas primeiras dores e qualquer impressão psíquica. É possível, e na realidade provável, que o que ela sentia na época fossem dores musculares reumáticas comuns. Além disso, mesmo que estivéssemos inclinados a supor que esse primeiro acesso de dores foi o efeito de uma conversão histérica devida ao repúdio de seus pensamentos eróticos na época, permanece o fato de que as dores desapareceram depois de apenas alguns dias, de modo que a paciente se comportara, na vida real, de maneira diferente do que pareceu indicar na análise. Durante a reprodução do que denominei de primeiro período, todas as histórias da paciente sobre a doença e morte do pai, sobre suas impressões acerca do relacionamento com o primeiro cunhado, e assim por diante, foram acompanhadas de dores, ao passo que, na época em que efetivamente vivenciou essas impressões, ela não sentira dor alguma. Não seria esta uma contradição destinada a reduzir bastante nossa crença no valor explicativo de uma análise como esta?
Creio que posso solucionar essa contradição presumindo que as dores - os produtos da conversão - não ocorreram enquanto a paciente estava experimentando as impressões do primeiro período, mas só posteriormente, isto é, no segundo período, enquanto reproduzia essas impressões em seus pensamentos. Em outras palavras, a conversão não se deu ligada a suas impressões enquanto novas, mas sim em conexão com suas lembranças das mesmas. Acredito mesmo que esse curso dos acontecimentos não é nada incomum na histeria e que, na verdade, desempenha um papel regular na gênese dos sintomas histéricos. Mas como uma afirmação desse tipo não é evidente em si mesma, tentarei torná-la mais plausível apresentando mais alguns exemplos.
Certa vez aconteceu que um novo sintoma histérico se desenvolveu numa paciente em pleno curso de um tratamento analítico dessa espécie, de modo que pude empreender a tarefa de me livrar dele um dia após seu aparecimento. Interpolarei aqui as principais características do caso. Foi um caso bem simples, porém não destituído de interesse.
A Srta. Rosalia H., de vinte e três anos de idade, vinha há alguns anos estudando para tornar-se cantora. Tinha boa voz, mas se queixava de que, em certas partes de seu registro, perdia o controle sobre ela. Tinha uma sensação de sufocamento e de constrição na garganta, de modo que sua voz soava velada. Por esse motivo seu professor ainda não pudera consentir que ela se apresentasse em público como cantora. Embora essa imperfeição lhe afetasse apenas o registro médio, não podia ser atribuída a um defeito no próprio órgão. Às vezes a perturbação desaparecia por completo e seu professor expressava grande satisfação; em outras ocasiões, bastava ela estar um pouco agitada, algumas vezes sem nenhuma causa aparente, para que a sensação de constrição reaparecesse e a produção da voz fosse prejudicada. Não foi difícil reconhecer uma conversão histérica nessa sensação extremamente perturbadora. Não tomei nenhuma providência para descobrir se havia de fato uma contratura dos músculos das cordas vocais. Durante a análise hipnótica que realizei com a moça vim a saber dos seguintes fatos sobre sua história e, conseqüentemente, sobre a causa de seu problema. Ela perdera os pais cedo e fora levada para morar com uma tia que tinha muitos filhos. Em conseqüência disso, envolveu-se numa vida familiar muito infeliz. O marido da tia, que era uma pessoa visivelmente patológica, maltratava de maneira brutal a esposa e os filhos. Feria os sentimentos deles, sobretudo pela forma como demonstrava uma evidente preferência sexual pelas criadas e amas da casa; e quanto mais os filhos foram crescendo, mais ofensivo isso se tornou. Após a morte da tia, Rosalia tornou-se a protetora da multidão de crianças que agora eram órfãs e oprimidas pelo pai. Ela levava seus deveres a sério e superou todos os conflitos a que sua posição a conduziu, embora isso requeresse grande esforço para reprimir o ódio e o desprezo que sentia pelo tio. Foi nessa época que a sensação de constrição na garganta começou. Todas as vezes que tinha de refrear uma resposta, ou se obrigava a ficar calada em face de alguma acusação ultrajante, sentia a garganta arranhar e apertar e perdia a voz - todas as sensações localizadas na laringe ou na faringe que agora interferiam com o canto. Não era de admirar que ela buscasse uma oportunidade para se tornar independente e escapar das agitações e das experiências aflitivas que ocorriam diariamente na casa do tio. Um professor de canto muito competente ajudou-a de modo desinteressado e lhe assegurou que sua voz justificava que escolhesse o canto como profissão. Ela começou então a tomar lições com ele em segredo. Mas muitas vezes saía às pressas para a aula de canto enquanto ainda tinha a constrição na garganta, que costumava persistir após cenas violentas em casa. Como conseqüência, estabeleceu-se com firmeza uma ligação entre o canto e sua paraestesia histérica - uma ligação para a qual o caminho foi preparado pelas sensações orgânicas provocadas pelo canto. O aparelho sobre o qual ela deveria ter pleno controle quando cantava revelou-se catexizado com resíduos de inervação que sobraram das numerosas cenas de emoção reprimida. Depois dessa época, ela abandonou a casa do tio e se mudou para outra cidade, para ficar longe da família. Mas isso não eliminou sua dificuldade.

Essa moça bonita e excepcionalmente inteligente não exibia quaisquer outros sintomas histéricos.
Fiz o melhor que pude para livrá-la dessa “histeria de retenção” fazendo-a narrar todas as suas experiências perturbadoras e a ab-reagi-las a posteriori. Fiz com que destratasse o tio, lhe passasse sermões, lhe dissesse a verdade nua e crua e assim por diante, e esse tratamento lhe fez bem. Infelizmente, contudo, ela vivia em Viena em condições muito desfavoráveis. Não tinha sorte com os parentes. Fora alojada por outro tio, que a tratava de maneira amistosa, mas exatamente por esse motivo a tia tomara aversão a ela. Essa mulher suspeitava que o marido tinha um interesse mais profundo pela sobrinha e, assim resolveu tornar-lhe a estada em Viena tão desagradável quanto possível. A própria tia, em sua mocidade, fora obrigada a desistir de uma carreira artística e invejava a sobrinha por poder cultivar seu talento, embora no caso da moça não tivesse sido seu desejo, mas sua necessidade de independência, que lhe determinara a decisão. Rosalie sentia-se tão constrangida na casa que não se aventurava, por exemplo, a cantar ou tocar piano enquanto a tia pudesse ouvi-la, e evitava cuidadosamente cantar ou tocar para o tio (que, aliás, era um senhor idoso, irmão de sua mãe) quando havia alguma possibilidade de a tia entrar. Enquanto eu tentava eliminar os vestígios de antigas agitações, surgiram outras a partir dessas relações com seu anfitrião e sua anfitrioa, que por fim interferiram no êxito do meu tratamento e o levaram a um fim prematuro.
Um dia a paciente chegou para a sessão com um novo sintoma, que não chegava a ter vinte e quatro horas. Queixava-se de uma desagradável sensação de alfinetadas nas pontas dos dedos, as quais, segundo disse, vinha sentindo com intervalos de poucas horas desde o dia anterior e que a obrigavam a fazer um movimento peculiar de contorção dos dedos. Não cheguei a observar um acesso, caso contrário sem dúvida teria podido adivinhar, pela natureza dos movimentos, o que os havia ocasionado. Mas imediatamente tentei seguir a trilha da explicação do sintoma (era, na verdade, um ataque histérico menor) pela análise hipnótica. Visto que a coisa só começara a existir há tão pouco tempo, eu tinha esperança de poder explicar rapidamente o sintoma e eliminá-lo. Para minha surpresa, a paciente desfiou um grande número de cenas, sem hesitação e em ordem cronológica, a começar por sua primeira infância. Pareciam ter em comum o fato de lhe ter sido causado algum dano do qual ela não pudera defender-se e que teria feito seus dedos estremecerem. Eram cenas, por exemplo, como a de ter que estender a mão na escola para que o professor lhe batesse com uma régua. Mas tinham sido ocasiões muito comuns e eu estava preparado para negar que pudessem desempenhar um papel na etiologia de um sintoma histérico. Mas foi diferente com uma cena de sua infância que ela descreveu. O tio mau, que sofria de reumatismo, pedira-lhe que massageasse suas costas e ela não ousara recusar. Na ocasião, ele estava deitado na cama e, de repente, jogou longe os lençóis, deu um salto e tentou agarrá-la e derrubá-la na cama. A massagem, é claro, estava terminada, e no momento seguinte ela havia fugido e se trancado em seu quarto. Ficou claro que ela relutava em se lembrar disso e não estava disposta a dizer se vira algo quando ele se descobriu subitamente. As sensações nos dedos poderiam ser explicadas, nesse caso, pelo impulso reprimido de puni-lo, ou simplesmente por tê-lo massageado na ocasião. Foi somente depois de relatar essa cena que ela chegou à do dia anterior, depois da qual a sensação e os tremores nos dedos haviam-se instalado como um símbolo mnêmico recorrente. O tio com quem ela morava agora pedira-lhe que tocasse alguma coisa. Ela se sentara ao piano e se acompanhara numa canção, pensando que a tia houvesse saído, mas, de repente, esta apareceu na porta. Rosalie deu um salto, fechou violentamente a tampa do piano e jogou longe a partitura. Podemos adivinhar qual foi a lembrança que lhe surgiu à mente e qual a seqüência de pensamentos que ela estava rechaçando naquele momento: um sentimento intenso de ressentimento pela suspeita injusta a que ficou sujeita e que a teria levado a abandonar a casa, ao passo que, na verdade, se via obrigada a permanecer em Viena por causa do tratamento e não havia nenhum outro lugar onde pudesse alojar-se. O movimento dos dedos que a vi fazer enquanto narrava essa cena foi o de afastar algo retorcendo os dedos, da maneira como em sentido literal ou figurado, pomos algo de lado - jogamos fora um pedaço de papel ou rejeitamos uma sugestão.
Ela foi muito firme em sua insistência de que não havia notado esse sintoma antes - de que ele não fora ocasionado pelas cenas inicialmente descritas por ela. Assim, só nos restou supor que o acontecimento da véspera havia, em primeiro lugar, despertado a lembrança de acontecimentos anteriores de temática semelhante, e que a partir daí se formara um símbolo mnêmico que se aplicava a todo o grupo de lembranças. A energia para a conversão fora suprida, de um lado, por um afeto renovado e, de outro, pelo afeto relembrado.

Ao considerarmos a questão mais detidamente, devemos reconhecer que um processo dessa natureza é mais a regra do que a exceção na gênese dos sintomas histéricos. Quase invariavelmente, ao investigar os determinantes desses estados, o que tenho encontrado não é uma única causa traumática, mas um grupo de causas semelhantes. (Isso foi bem exemplificado no caso da Sra. Emmy - Caso 2). Em alguns desses exemplos, foi possível comprovar que o sintoma em causa já aparecera por um breve período após o primeiro trauma e depois passara, até ser novamente provocado e estabilizado por um trauma subseqüente. Não existe, contudo, em princípio, nenhuma diferença entre o fato de o sintoma surgir dessa forma temporária após sua primeira causa provocadora e o fato de estar latente desde o começo. Com efeito, na grande maioria dos exemplos, verificamos que um primeiro trauma não deixa nenhum sintoma, ao passo que um trauma posterior da mesma espécie produz um sintoma, só que este último não pode ter surgido sem a cooperação da causa provocadora anterior, nem pode ter esclarecido sem se levarem em conta todas as causas provocadoras.

Enunciado em termos da teoria da conversão, esse fato indiscutível da soma dos traumas e da latência preliminar dos sintomas nos ensina que a conversão pode resultar tanto de sintomas novos quanto dos que são relembrados. Essa hipótese explica inteiramente a aparente contradição que observamos entre os fatos da doença da Srta. Elisabeth von R. e sua análise. Não resta dúvida de que a existência persistente na consciência de idéias cujo afeto não foi trabalhado pode ser tolerada em alto grau por indivíduos saudáveis. A opinião que acabo de apresentar nada mais faz do que aproximar o comportamento das pessoas histéricas do das pessoas sadias. O que nos interessa aqui é claramente um fator quantitativo - a questão de qual o grau máximo de tensão afetiva dessa natureza que o organismo pode tolerar. Mesmo uma pessoa histérica é capaz de reter certa quantidade de afeto com o qual não se lidou; quando, em virtude da ocorrência de causas provocadoras semelhantes, essa quantidade é aumentada pela soma até um ponto além da tolerância do indivíduo, dá-se o ímpeto para a conversão. Assim, quando dizemos que a formação dos sintomas histéricos pode processar-se com base tanto em afetos relembrados quanto em afetos novos, não estamos fazendo nenhuma afirmação desconhecida, e sim declarando algo que é quase aceito como um postulado.
Acabo de examinar os motivos e o mecanismo desse caso de histeria; resta-me considerar com que precisão o sintoma histérico foi determinado. Por que foi que o sofrimento mental da paciente passou a ser representado por dores nas pernas e não em qualquer outra parte? As circunstâncias indicam que essa dor somática não foi criada pela neurose, mas apenas utilizada, aumentada e mantida por ela. Posso acrescentar imediatamente que encontrei um estado de coisas semelhantes em quase todos os casos de dores histéricas dos quais pude obter alguma compreensão. | ver em [1].| Sempre estivera presente, no início, uma dor autêntica, de base orgânica. Parece que as dores humanas mais comuns e mais difundidas são as escolhidas com mais freqüência para desempenhar um papel na histeria: em particular, as dores periosteais e nevrálgicas que acompanham as doenças dentárias, as dores de cabeça provenientes de muitas fontes diferentes e, não com menos freqüência, as dores musculares reumáticas que tantas vezes deixam de ser reconhecidas | ver em [1]|. Da mesma forma, atribuo uma base orgânica ao primeiro acesso de dor da Srta. Elisabeth von R., que ocorreu muito antes, quando ela ainda cuidava do pai. Não obtive nenhum resultado quando tentei descobrir uma causa psíquica para ela - e estou inclinado, devo confessar, a atribuir um poder de diagnóstico diferencial a meu método de evocar lembranças ocultas, contanto que ele seja utilizado com cuidado. Essa dor, que fora reumática em sua origem, tornou-se então um símbolo mnêmico das excitações psíquicas penosas da paciente, e isso aconteceu, até onde posso ver, por mais de uma razão. A primeira, e sem dúvida a mais importante delas, foi que a dor se achava presente na consciência |de Elisabeth| mais ou menos na mesma época que as excitações. Em segundo lugar, estava ligada, ou poderia estar ligada, por muitos caminhos com as idéias em sua mente na época. De fato, a dor pode realmente ter sido uma conseqüência, embora apenas remota, do período em que ela cuidara dos doentes - da falta de exercício e da alimentação reduzida que seus deveres de enfermeira acarretavam. Mas a moça não tinha nenhum conhecimento nítido disso. Maior importância provavelmente há de ser atribuída ao fato de que ela deve ter sentido a dor naquela ocasião em momentos significativos, por exemplo, quando pulava da cama no frio do inverno em resposta aos chamados do pai | ver em [1]|. Mas o que deve ter tido influência positivamente decisiva sobre o rumo tomado pela conversão foi outra linha de conexão associativa | ver em [1]|: o fato de que, durante vários dias seguidos, uma de suas pernas doloridas entrou em contato com a perna intumescida do pai enquanto as ataduras eram trocadas. A região da perna direita que foi marcada por esse contato ficou sendo, a partir daí, o foco de suas dores e o ponto de onde elas se irradiavam.  Formou uma zona histerogênica artificial cuja origem, no presente caso, pôde ser claramente observada.
Se alguém ficar surpreso com essa conexão associativa entre a dor física e o afeto psíquico, em razão de ela ser de caráter tão múltiplo e artificial, devo responder que esse sentimento é tão pouco justificado quanto a surpresa diante do fato de serem os ricos aqueles que têm mais dinheiro. Na verdade, quando não existem essas conexões tão numerosas, o sintoma histérico não se forma, pois a conversão não encontra nenhuma trilha aberta para ela. E posso afirmar que, quanto a sua determinação, o exemplo da Srta. Elisabeth von R. situou-se entre os mais simples. Já tive que desenredar fios dos mais emaranhados, especialmente no caso da Sra. Caecilie M.
No relato do caso clínico | ver em [1] e segs.| já discuti a maneira pela qual a astasia-abasia da paciente se desenvolveu sobre essas dores, depois de uma trilha específica ter sido aberta para a conversão. Naquele trecho, contudo também externei a opinião de que a paciente criara ou aumentara seu distúrbio funcional por meio da simbolização, que encontrara na astasia-abasia uma expressão somática para sua falta de uma posição independente e sua incapacidade de fazer qualquer alteração em suas circunstâncias de vida, e que expressões como “não ser capaz de dar um único passo à frente” e “não ter nada em que se apoiar” serviram de ponte para esse novo ato de conversão | ver em [1]|.
Tentarei sustentar esse ponto de vista por meio de outros exemplos. A conversão com base na simultaneidade, quando há também uma ligação associativa, parece ser a que menos exige uma predisposição histérica; a conversão por simbolização, por outro lado, parece exigir a presença de um grau mais elevado de modificações histéricas. Isso pôde ser observado no caso da Srta. Elisabeth, mas apenas no último estágio de sua histeria. Os melhores exemplos de simbolização que vi ocorreram na Sra. Caecilie M., cujo caso eu poderia descrever de o mais grave e instrutivo que já tive. Já expliquei | ver em [1]| que um relato pormenorizado de sua doença é infelizmente impossível.
A Sra. Caecilie sofria, entre outras coisas, de uma nevralgia facial extremamente violenta, que surgia subitamente duas ou três vezes por ano, durava de cinco a dez dias, resistia a qualquer espécie de tratamento e cessava abruptamente. Limitava-se à segunda e terceira ramificações do trigêmeo, e visto que uma excreção anormal de uratos estava sem dúvida alguma presente e que um “reumatismo agudo” não muito bem definido desempenhava certo papel na história da paciente, o diagnóstico de nevralgia gotosa era bastante plausível. Esse diagnóstico foi confirmado pelos diferentes médicos chamados a cada acesso. Prescrevia-se o tratamento comum para esses casos: escova elétrica, água alcalina e purgantes; mas a cada vez a nevralgia se mantinha inalterada até que resolvia dar lugar a outro sintoma. Numa época anterior de sua vida - a nevralgia tinha quinze anos de idade -, os dentes da paciente tinham sido responsabilizados pelo problema. Foram condenados à extração e, um belo dia, sob narcose, a sentença foi executada em sete dos criminosos. Essa tarefa não foi tão fácil; os dentes estavam presos com tanta firmeza que as raízes da maioria deles tiveram que ser deixadas no lugar. Essa operação cruel não teve nenhum resultado, nem temporário nem permanente. Naquela época, a nevralgia campeou por meses a fio. Mesmo durante meu tratamento, a cada acesso de nevralgia o dentista era chamado. Em todas essas ocasiões, ele diagnosticou a presença de raízes doentes e começou a trabalhar nelas; mas, em geral, logo foi interrompido, pois a nevralgia cessava de repente, ao mesmo tempo, cessava a necessidade dos serviços do dentista. No intervalo entre as crises, os dentes da paciente não doíam. Certo dia, quando um acesso estava outra vez campeando furiosamente, a paciente fez com que eu lhe aplicasse tratamento hipnótico. Proibi-lhe energicamente que sentisse dores e, a partir desse momento, elas pararam. Comecei então a ter dúvidas quanto à autenticidade da nevralgia.
Cerca de um ano após esse tratamento hipnótico bem-sucedido, a doença da Sra. Caecilie assumiu uma forma nova e surpreendente. Ela subitamente apresentou novos estados patológicos, diferentes dos que haviam caracterizado os últimos anos. Mas, após pensar um pouco, a paciente declarou que tivera todos eles em várias ocasiões durante sua longa doença, que datava de trinta anos antes. Surgiu então uma abundância realmente surpreendente de ataques histéricos a que a paciente pôde atribuir um lugar preciso no passado. Logo foi possível acompanhar também as cadeias de pensamento muitas vezes complexas que determinaram a ordem de ocorrência desses ataques. Elas pareciam uma série de quadros com textos explanatórios. Pitres deve ter pensado em algo semelhante ao apresentar sua descrição do que denominou de “délire ecmnésique”. Era notável observar a maneira como um ataque histérico desse tipo, pertencente ao passado, era reproduzido. Primeiro surgia, enquanto a paciente gozava da melhor saúde, um estado de “ânimo patológico com um colorido específico, que ela sistematicamente interpretava mal e atribuía a algum acontecimento corriqueiro das últimas horas. A seguir, acompanhados por uma crescente turvação da consciência, sobrevinham os sintomas histéricos: alucinações, dores, espasmos e longos discursos declamatórios. Por fim, estes sintomas eram seguidos pela emergência, sob forma alucinatória, de uma experiência passada que tornava possível explicar seu estado de espírito inicial e o que determinara os sintomas de seu atual ataque. Com essa última parte do ataque ela recuperava a lucidez mental. Seus problemas desapareciam como que num passe de mágica e ela voltava a sentir-se bem - até o ataque seguinte, meio dia depois. Em geral, eu era chamado no clímax do ataque, induzia um estado de hipnose, evocava a reprodução da experiência traumática e apressava o final do ataque por meios artificiais. Como assisti a várias centenas desses ciclos com a paciente, obtive as informações mais instrutivas sobre a maneira pela qual os sintomas histéricos são determinados. Na realidade, foi o estudo desse caso notável, juntamente com Breuer, que levou diretamente à publicação de nossa “Comunicação Preliminar” |de 1893, que serve de introdução ao presente volume|.
Nessa fase do trabalho chegamos finalmente à reprodução de sua nevralgia facial, que eu próprio tratara nas ocasiões em que surgiu em ataques atuais. Estava curioso em descobrir se também a nevralgia mostraria ter uma causa psíquica. Quando comecei a evocar a cena traumática, a paciente viu-se de volta a um período de grande irritabilidade mental para com o marido. Descreveu uma conversa que tivera com ele e uma observação dele que ela sentira como um áspero insulto. De repente, levou a mão à face, soltou um grande grito de dor e exclamou: “Foi como uma bofetada no rosto”. Com isso, cessaram tanto a dor como o ataque.
Não há dúvida de que o que acontecera fora uma simbolização. Ela se sentira como se tivesse realmente recebido uma bofetada. Todos perguntarão imediatamente como foi que a sensação de uma “bofetada no rosto” veio a assumir os contornos externos de uma nevralgia do trigêmeo, por que se restringiu às segundas e terceiras ramificações e por que piorava quando a paciente abria a boca e mastigava - embora, diga-se de passagem, não quando ela falava.
No dia seguinte, a nevralgia estava de volta. Mas dessa vez foi dissipada pela narração de outra cena, cujo conteúdo fora, mais uma vez, um suposto insulto. As coisas continuaram assim por nove dias. Parecia que, durante anos, os insultos, principalmente os externados verbalmente, haviam, através da simbolização, provocado novos ataques de sua nevralgia facial.
Mas por fim repercorreu o caminho de volta a seu primeiro acesso de nevralgia, mais de quinze anos antes. Ali não tinha havido simbolização, mas uma conversão através da simultaneidade. Ela vira um quadro doloroso, acompanhado de sentimentos de autocensura, e isso a forçara a rechaçar outro grupo de pensamentos. Assim, tratava-se de um caso de conflito e defesa. A geração da nevralgia naquele momento só podia ser explicada pela suposição de que ela estava sofrendo, na época, de leves dores de dentes ou de dores no rosto, e isso não era improvável, visto que ela estava então nos primeiros meses de sua primeira gravidez.
Assim, a explicação foi que essa nevralgia passara a ser indicativa de uma excitação psíquica específica pelo método usual da conversão, mas que, posteriormente, pôde ser acionada através de reverberações associativas provenientes de sua vida mental ou da conversão simbólica - a rigor, o mesmo comportamento que encontramos na Srta. Elisabeth von R.
Darei um segundo exemplo que demonstra a ação da simbolização em outras condições. Num determinado período, a Sra. Caecilie foi acometida de uma violenta dor no calcanhar direito - uma dor lancinante a cada passo que dava, que tornou impossível andar. A análise levou-nos, com relação a isso, a uma época em que a paciente estivera num sanatório no exterior. Ela passara uma semana de cama e ia ser levada ao refeitório comum pela primeira vez pelo médico residente. A dor sobreveio no momento em que ela lhe tomou o braço para sair da sala com ele; desapareceu durante a reprodução da cena, quando a paciente me disse que, não ocasião, ficara com medo de não “acertar o passo” com aqueles estranhos.
A princípio, isso parece ser um exemplo surpreendente e mesmo cômico da gênese dos sintomas histéricos através da simbolização por meio de uma expressão verbal. Um exame mais detido da situação, no entanto, favorece outra opinião do caso. A paciente vinha sofrendo, na época, de dores generalizadas nos pés, e fora por causa delas que ficara presa ao leito por tanto tempo. Tudo o que se poderia alegar em favor da simbolização era que o medo que dominou a paciente ao dar os primeiros passos escolheu, dentre todas as dores que a afligiam na época, a dor específica que era simbolicamente apropriada, a dor no calcanhar direito, e a transformara numa dor psíquica, imprimindo-lhe uma persistência especial.
Nesses exemplos, o mecanismo da simbolização parece ser relegado a uma importância secundária, como sem dúvida é a regra geral. Mas disponho de exemplos que parecem provar a gênese dos sintomas histéricos apenas através da simbolização. O exemplo que se segue é um dos melhores e se relaciona, mais uma vez, com a Sra. Caecilie. Quando contava quinze anos, ela estava deitada na cama sob o olhar vigilante da avó rigorosa. A moça subitamente deu um grito; sentira uma dor penetrante na testa, entre os olhos, que durou semanas. No decorrer da análise dessa dor, que foi descrita após quase trinta anos, ela me disse que a avó lhe dirigira um olhar tão “penetrante” que fora direto até o cérebro. (Ela sentira medo de que a velha a estivesse olhando com desconfiança.) Ao contar-me isso, irrompeu numa sonora gargalhada e a dor mais uma vez desapareceu. Neste caso, não posso discernir outra coisa senão o mecanismo da simbolização, que tem seu lugar, em certo sentido, a meio caminho entre a auto-sugestão e a conversão.
Minha observação da Sra. Caecilie M. proporcionou-me a oportunidade de fazer uma coletânea sistemática de tais simbolizações. Todo um grupo de sensações físicas que normalmente se considera que são determinadas por causas orgânicas era, no caso dela, de origem psíquica, ou pelo menos possuía um significado psíquico. Uma série específica de suas experiências foi acompanhada por uma sensação de punhalada na região cardíaca (significando “apunhalou-me no coração”). A dor, que ocorre na histeria, em que se cravam pregos na cabeça tinha sem dúvida de ser explicada, no caso dela, como uma dor relacionada com o pensamento. (“Uma coisa me entrou na cabeça.”) As dores dessa espécie eram sempre dissipadas tão logo os problemas em jogo eram esclarecidos. Junto com a sensação de uma “aura” histérica na garganta, quando essa sensação surgia após um insulto, havia a idéia de que “terei de engolir isto”. A paciente apresentava uma quantidade enorme de sensações e idéias que corriam paralelamente umas às outras. Ora a sensação evocava a idéia que a explicava, ora a idéia criava a sensação por meio de simbolização, e não raro tinha-se que deixar em aberto a questão de qual dos dois elementos fora o primário.

Não constatei nenhum uso tão extenso da simbolização em qualquer outro paciente. É verdade que a Sra. Caecilie M.era uma mulher de talentos bastante incomuns, principalmente artísticos, e cujo senso muito desenvolvido da forma era revelado em alguns poemas de grande perfeição. Sou de opinião, contudo, que quando um histérico cria uma expressão somática para uma idéia emocionalmente colorida, através da simbolização, isso depende menos do que se poderia imaginar de fatores pessoais ou voluntários. Ao tomar uma expressão verbal ao pé da letra e sentir uma “punhalada no coração” ou uma “bofetada no rosto” após um comentário depreciativo vivido como um fato real, o histérico não está tomando liberdades com as palavras, mas simplesmente revivendo mais uma vez as sensações a que a expressão verbal deve sua justificativa. Como poderíamos referir-nos a alguém que foi menosprezado dizendo que foi “apunhalado no coração”, a menos que o menosprezo tivesse de fato sido acompanhado por uma sensação precordial que poderia ser adequadamente descrita por essa expressão e a menos que fosse identificável por essa sensação? O que poderia ser mais provável do que a idéia de que a figura de linguagem “engolir alguma coisa”, que empregamos ao falar de um insulto ao qual não foi apresentada nenhuma réplica, originou-se na verdade das sensações inervatórias que surgem na faringe quando deixamos de falar e nos impedimos de reagir ao insulto? Todas essas sensações e inervações pertencem ao campo da “Expressão das Emoções”, que, como nos ensinou Darwin |1872|, consiste em ações que originalmente possuíam um significado e serviam a uma finalidade. Em sua maior parte, estas podem ter-se enfraquecido tanto que sua expressão em palavras nos parece ser apenas um quadro figurativo delas, ao passo que, com toda probabilidade, essa descrição um dia foi tomada em seu sentido literal; e a histeria tem razão em restaurar o significado original das palavras ao retratar suas inervações inusitadamente fortes. Com efeito, talvez seja errado dizer que a histeria cria essas sensações através da simbolização. É possível que ela não tome em absoluto o uso da língua como seu modelo, mas que tanto a histeria quanto o uso da língua extraiam seu material de uma fonte comum. [1]

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